A ‘estrela’ mais rara do Natal: entenda por que a conjunção entre Saturno e Júpiter acontece agora

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(Foto: Ilustração com base em imagens da NAS/Shutterstock)

Já contavam os cristãos: na noite de Natal, uma estrela apareceu no céu para anunciar o nascimento do menino Jesus. Mais do que isso: ela teria guiado os reis magos até a cidade de Belém, no local exato onde Maria e José estavam com o bebê. De lá para cá, a ‘Estrela de Natal’ – ou ‘Estrela de Belém’ – ficou famosa e, nos meses de dezembro, vai parar até no topo das árvores enfeitadas em casa. 

Mas, depois de um ano tão atípico, a temporada de Natal de 2020 também não haveria de ser como nos outros anos. Isso porque o evento astronômico que ficou conhecido justamente como Estrela de Natal poderá ser observado novamente em quase todo o mundo depois de 400 anos. Trata-se da conjunção planetária entre Júpiter e Saturno, que atingirá seu ponto máximo nesta segunda-feira (21), mas que já pode ser vista desde a última quarta-feira (16). 

Vistos da Terra, os dois planetas ficarão totalmente alinhados, como se fossem uma espécie de planeta duplo. Esse alinhamento acontece oficialmente a cada 20 anos, só que, dessa vez, é mais especial. O encontro em 2020 está sendo chamado de “grande junção”, porque a última vez que eles estiveram tão perto foi em 1623. No entanto, a última vez em que planetas estiveram tão próximos e foi visível foi em 1226 – quando o fenômeno ocorreu à noite. 

Esse alinhamento tão próximo não vai acontecer de novo até o dia 15 de março de 2080. Essa data no futuro também revela outra particularidade deste ano – um evento como esse pode acontecer em qualquer dia do ano, como explica a pesquisadora Vera Martin, professora titular de Física da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) e doutora em Astronomia.

“Pode ocorrer em qualquer data. É incrível que, em um ano tão atípico, a conjunção venha acontecer próxima ao Natal e ter essa simbologia da Estrela de Belém. É muita coincidência”, diz a pesquisadora, que é a coordenadora do Observatório Astronômico Antares. 

Esses intervalos de tempo ocorrem porque, no Sistema Solar, todos os planetas giram em torno do Sol, mas cada um com sua velocidade. A Terra, por exemplo, demora 365 dias para completar a volta – ou seja, um ano. Assim, ao longo dos anos, os cientistas têm projetado, a partir dos anos terrestres, quanto tempo demora para que os outros planetas completem suas respectivas voltas. 

Perspectiva
Júpiter, o quinto mais distante do Sol, demora 12 anos para completar uma volta. Já Saturno, que vem logo em seguida, leva pouco mais de 29 anos terrestres. Os dois continuam a distâncias diferentes do Sol – Júpiter está a 750 milhões de quilômetros, enquanto Saturno está a pouco mais de 1,4 bilhão de quilômetros. São velocidades e tempos diferentes. Por isso, o efeito da Estrela de Natal é considerado a partir da vista da Terra. 

“Eles aparentam estar próximos um do outro, mas é uma aproximação por efeito de perspectiva. No dia 21, Júpiter e Saturno estarão separados por mais de 700 milhões de quilômetros um do outro. Isso é quatro vezes maior do que a distância entre a Terra e o Sol”, pondera o astrofísico Nícolas Oliveira, que faz doutorado em Astronomia no Observatório Nacional. 

Além disso, a velocidade dos dois planetas é muito menor do que a da Terra, como lembra a professora Vera Martin. Como Júpiter e Saturno são muito iluminados e brilhantes, há esse efeito diferente. 

“Eles vão se sobrepor, mas refletem muito a luz do Sol. A conjunção dos dois faz parecer que esse brilho aumentou”, afirma. 

É um movimento muito lento e que, aparentemente, de uma noite para a outra, não há mudança. “É como se Júpiter estivesse parado e Saturno se aproximando, como se Saturno, entre aspas, fosse se esconder atrás de Júpiter”, explica a pesquisadora. 

O que houve em Belém
Não há como afirmar cientificamente, com certeza, qual foi o evento astronômico que aconteceu no céu na noite em que Jesus nasceu. Mas, como destaca o físico e astrônomo Renato Las Casas, professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), há muitas hipóteses. 

“Uma ideia que se teve muito tempo e que permanece até hoje no imaginário popular é que ela teria sido um cometa. É muito comum encontrar, nas árvores de Natal, adornos de uma estrela com cauda como se fosse a de Belém”, cita Las Casas.

De fato, a ciência acreditou que fosse um cometa por muitos séculos. Acreditava-se até que seria o cometa Halley, porque na época não se conhecia bem a periodicidade dele. Hoje, com esse intervalo de tempo conhecido (entre 75 e 75 anos), é possível afirmar com precisão que o Halley teria passado anos antes da data provável do nascimento. 

Em seguida, cientistas foram em busca de outros cometas conhecidos, mas a conclusão era de que nenhum teria passado numa época viável. Há, ainda, a possibilidade de ser um cometa de longo período, que podem variar até milhões de anos. 

Mas, na avaliação do professor, é preciso tentar entender o que pode ter sido a Estrela de Natal tentando compreender as crenças dos astrólogos da época. Os pensadores que analisavam o céu naquela época tinham crenças astrológicas. 

“Dentro dessas crenças, Júpiter tinha uma conotação de reinado. Ele estava associado a coroações, coisas do tipo”, diz Las Casas. No ano 7 d. C., houve uma conjunção entre Júpiter e Saturno que, segundo as crenças astrológicas, estava associada a Israel. Já no ano 6, houve uma conjunção entre os dois, mas envolvendo o planeta Marte. Esses dois anos ainda são períodos possíveis para o nascimento de Jesus. 

Mas ele volta a reforçar: o que acontece agora é apenas uma coincidência. “Normalmente, a cada 20 anos, quando temos uma aproximação entre Júpiter e Saturno, podemos ver que Júpiter passa 2 ou 3 graus abaixo ou acima de Saturno. Agora, essa aproximação vai ser menor do que um”, explica o professor da UFMG. 

Outras hipóteses são de que a Estrela de Belém poderia ser um meteoro ou uma supernova, que é uma explosão muito brilhante no estágio final de evolução de algumas estrelas. Há, ainda, a possibilidade de ter sido outra conjunção planetária: de Júpiter e Vênus, que é muito brilhante. 

Quem vai assistir
Para quem quiser acompanhar, o fenômeno vai ser facilmente identificável a olho nu. No entanto, se a pessoa tiver um telescópio ou até mesmo um binóculo, o efeito deve ser ainda mais interessante, na avaliação dos cientistas. 

Uma dica do astrofísico Nícolas Oliveira é acompanhar o evento logo após o pôr do sol, na direção Oeste, entre 18h e 19h50. Depois desse horário, a conjunção já vai passar do horizonte e não deve mais ficar visível. 

Mesmo para quem não consegue identificar a diferença entre planetas e estrelas – no caso, as estrelas de verdade, não as conjunções planetárias – pode conseguir observar. 

“Os planetas apresentam uma luminosidade fixa. Eles quase não cintilam, enquanto as estrelas têm uma cintilação que é um efeito atmosférico. Eles exibem uma luminosidade mais constante, de modo que fica relativamente fácil fazer essa identificação”, afirma Oliveira.

Outra opção para identificar a conjunção entre Júpiter e Saturno ainda mais facilmente é fazer o download de algum aplicativo para smartphones que indique quais são os corpos celestes no céu, ao apontar o aparelho. Alguns exemplos são o Night Sky, Star Walk 2: Mapa do Céu, Mapa Celestial, Star & Planet Finder e Sky View Lite. 

Uma das pessoas que pretende assistir à conjunção é o professor de física André Bahia, 32 anos, que é membro do Grupo de Astrônomos Amadores da Bahia (AAB). Ele já tem o costume de observar eventos astronômicos há aproximadamente oito anos. 

No início, usava binóculos, mas, hoje, já tem o próprio telescópio. “A Terra é apenas uma pequenina porção do Sistema Solar e do universo como um todo. Embora tenhamos coisas belíssimas no nosso planeta, temos coisas belíssimas no Sistema Solar. Para mim, tem um significado especial porque estamos vendo corpos celestes que contam a história do universo”, diz.

Esta semana, André já conseguiu acompanhar o primeiro dia da conjunção planetária, quando Júpiter e Saturno começaram a se aproximar, na última quarta-feira. Mas, para ele, não dá para dizer qual teria sido o melhor fenômeno que já observou. 

“Cada evento é único. Já acompanhei outros e outras conjunções, mas todos são especiais a seu modo. A conjunção de planetas é muito legal. É uma coincidência muito bonita de se ver”, completa. 

Astrólogos falam em período mais voltado ao ‘social’
Segundo historiadores, os ‘reis magos’ que visitaram o Menino Jesus, na verdade, provavelmente eram sacerdotes de uma religião persa ligada à astrologia. Naquele contexto, os estudiosos tinham muitas crenças astrológicas. 

Nessa conjunção planetária de 2020, os astrólogos do presente também têm interpretações para esse evento astronômico. Para a astróloga e terapeuta holística Amanda Menezes, Júpiter e Saturno são planetas opostos complementares – o primeiro abre caminhos, enquanto o segundo é limitador. 

“No dia 21 de dezembro, eles vão estar em um nível como se a energia estivesse ainda mais intensa, tudo no signo de Aquário. Vamos abrir uma nova porta na questão da expansão mental espiritual. Significa muito mais expansão, uma saída do conservadorismo. Não é que a partir do dia 21 as coisas vão ficar magicamente mais leves e sutis, mas a gente abriu a porta”, explica. 

Por sua vez, o astrólogo e diretor da escola Gaia de Astrologia, Robson Papaleo, destaca que será um período marcado pela humanidade. “Todo é voltado para o ser humano, para a humanidade. Nas últimas décadas, (as conjunções) aconteceram nos signos de Terra, então o ser humano estava mais ligado a questões materiais. Os signos de ar estão mais associados a questões sociais”, diz. 

Agora, o momento será de maior busca por atividades grupais e interesse por tudo que é coletivo, de acordo com o astrólogo Gregório Pereira de Queiroz. 

“Essa conjunção está alinhada com a Era de Aquário. As eras chegam como ondas, elas não vêm de vez, vão entrando. Desde a Revolução Francesa, a Era de Aquário começa a se manifestar”, afirma. 

Uma era dura mais de dois mil anos. Para o astrólogo, há aspectos bons e ruins em todos os signos. “Como qualquer signo, tem o lado A e o lado B. O lado feio de aquário é que a coletivização imbeciliza as pessoas. Elas deixam de pensar por conta própria”, completa. 

O que a Estrela de Belém representa para as religiões? 

De acordo com a tradição cristã, a Estrela de Natal foi conhecida foi a responsável por revelar o nascimento de Jesus aos Reis Magos. Por isso, religiões ligadas ao cristianismo têm diferentes interpretações para o que a estrela representa. Confira algumas das principais. 

Católicos e evangélicos 
Para as principais religiões cristãs ocidentais, a Estrela de Belém apareceu no céu quando Jesus nasceu. Através dela, os Reis Magos teriam ido até o local onde o Menino Jesus estava, ao lado de Maria e José. A estrela teria parado exatamente onde estava o menino, segundo o evangelho de Mateus. 

Igreja Ortodoxa
Para os seguidores da Igreja Ortodoxa, a Estrela de Belém foi de fato um evento sobrenatural. Essa religião acredita que tratava-se de um anjo enviado por Deus para indicar o local do nascimento de Cristo. Por isso, nos registros iconográficos, a estrela muitas vezes é desenhada como uma auréola escura. 

Mórmons 
Para os mórmons, a Estrela de Belém realmente aconteceu enquanto evento astronômico. O Livro de Mórmon conta que projetos antigos afirmavam que uma nova estrela surgiria no céu quando acontecesse o nascimento. 

Testemunhas de Jeová
As Testemunhas de Jeová têm a interpretação mais diversa da estrela. Para pessoas dessa religião, ela não teria sido obra de Deus, mas algo que teria sido feito por Satanás. A estrela teria guiado os reis magos até o rei Herodes , que seria quem enviou os magos para procurar a criança. Para as Testemunhas de Jeová, foi devido à estrela que vieram acontecimentos que colocaram a vida de Jesus em perigo e provocaram a morte de crianças. Herodes, segundo a Bíblia, ordenou a morte de todos os meninos com até dois anos de idade. 

União do Vegetal 
Para a União do Vegetal, a Estrela do Natal é o próprio Menino Jesus, que teve sua chegada nesse dia. 

(Correio)