O Voz relembra entrevista com o saudoso Fernando Queiroz contando curiosidades da história de Santo Antônio de Jesus; veja!

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Imagem aérea da cidade de Santo Antônio e Jesus / Foto: Reprodução

Neste ano de 2020, Santo Antônio de Jesus, a capital do recôncavo baiano, está comemorando seus 140 anos de emancipação política. Em homenagem a cidade, o Voz da Bahia relembra uma entrevista realizada pelo repórter Marcus Augusto, no ano de 2001, com o saudoso Dr. Fernando Pinto de Queiroz (in memorian), advogado, historiador e autor do livro A Capela do Padre Matheus. Fernando foi primo do ex-prefeito, médico Dr. Urcisino Queiroz, e quando ainda em vida foi um conhecedor profundo da história do município. Veja a matéria completa abaixo:

Marcus: Sobre os primeiros habitantes destas terras, quais as tribos indígenas que viviam nessa região?

Fernando: As tribos indígenas eram nômades, não permaneciam muito tempo nos lugares, elas passavam em determinados pontos enquanto este lugar oferecia material de coleta e pesca a quem se dedicava. Aquelas tribos um pouco culturalmente avançadas, permaneciam um pouco mais nos locais, estabeleciam suas ocas e tabas porque plantavam, como por exemplo, a mandioca, caçavam e pescavam. As tribos que passavam eram os da língua Tupi, os Tupinambás, tivemos Cariris na região que foram trazidos do nordeste para os aldeamentos de Santo Antônio da Aldeia e lá nas terras do Garilu, que é hoje a Serra da Jiboia, nós tivemos o aldeamento da Pena Branca.

Foto: Acervo da cidade

Marcus: O senhor poderia falar da importância da igreja para a fundação da cidade e quem foi o Padre Matheus?

Fernando: Santo Antônio de Jesus não é uma cidade fundada, mas sim uma cidade nascida. Fundada é como Brasília que foi planejada e devidamente construída, mas Santo Antônio de Jesus nasceu em torno de uma capela que foi construída a partir de 1776, em terras doadas pelo Padre Matheus Vieira de Azevedo que apareceu na região mais ou menos nessa época, adquiriu um sítio, desmembrou uma parte e doou a para a construção dessa capela em louvor a Santo Antônio de Jesus. Ele formou uma irmandade que contribuía com as custas para erguer essa capela, ela ficou pronta entre 1777 e 1778. Claro que, como toda capela, começaram a surgir casas residenciais, pessoas que moravam no interior e vinham assistir os atos religiosos e, aqueles que podiam mais, começaram a construir casas nas proximidades da igreja para ver as missas, batizados, casamentos e etc. Padre Matheus a princípio tinha um oratório enquanto construía a Igreja, ele tinha um oratório na casa dele. E, depois de construída a capela, ele transferiu o material religioso para lá, em torno dela foi construída uma Praça, que hoje é a Padre Mateus. Com as construções daquelas pessoas vinham para os atos religiosos, ficavam e voltavam para as suas fazendas, até porque quando chovia muito, os rios enchiam e a passagem de um lado para o outro era difícil. Então essa é um pouco da história do Padre Matheus.

Igreja Matriz / Foto: Acervo da cidade

Marcus: Quando Santo Antônio de Jesus passou a categoria de Vila?

Fernando: Apenas em 1880, foi a Lei número 2952 do governo provincial de 29 de maio de 1880, que elevou a então freguesia de Santo Antônio de Jesus a categoria de Vila. Então essa é a data oficial, já se comemorou até o centenário da criação da Vila, eu fiz parte da comissão de organização dos festejos do centenário, naquela época o prefeito era Urcisino Pinto de Queiroz e elaboramos uma programação, e até então, eu não tinha percebido um detalhe, que na verdade a emancipação político-administrativa não adveio apenas na lei 2952, a emancipação só se efetivou em 04 de outubro de 1883, após 3 anos, com a instalação da Câmara Municipal de Vereadores de Santo Antônio de Jesus. Então naquele dia, às 11h do dia na casa de Claudemiro Pereira, nas Quatro Esquinas, foi ali onde a Câmara se reuniu pela primeira vez sob a presidência do presidente da Câmara de Nazaré, a quem estávamos subordinados na época o município e foram empossados os primeiros vereadores eleitos de Santo Antônio de Jesus e eleita a Mesa Diretora cujo presidente era Manoel José da Paixão de Araújo que na época era chefe do Partido Libertador.

Foto: Acervo da cidade

M: Quais foram as principais e primeiras lideranças políticas no município?

F: As principais lideranças políticas pode se resumir a Manoel José da Paixão de Araújo, chefe do Partido Libertador, ele manteve a maioria do eleitorado, enquanto vivo, durante toda a época da Vila até a República, Santo Antônio de Jesus foi governada por ele, a Câmara era sempre presidida por ele e o vice-presidente era o Padre Cirilo Dias, que era de Jaguaripe, a minoria era constituída dos adeptos dos chefes do Partido Conservador que era Félix Gaspar de Araújo e Almeida.

M: Quem foi o primeiro prefeito da história do município?

F: O prefeito só surgiu com a Revolução de 30, porque a princípio a Câmara desenvolvia um duplo papel, ela Legislava e Executava. O presidente da Câmara era quem exercia a função executiva. Vale dizer, Manoel José da Paixão de Araújo, de 1883 até 1890, depois da Proclamação da República, foi quem dirigiu o município, e sempre na oposição a Félix Gaspar de Araújo e Almeida. Essas foram as principais lideranças políticas de Santo Antônio de Jesus. Na República surgiu a figura do Intendente, aí que se criou um cargo específico para o executivo, um Conselho Municipal, ao invés de Câmara de Vereadores, um Conselho e um Intendente eleitos pelo povo. Com a Revolução de 30, esse Intendente passou se denominar de Prefeito, então o primeiro de Santo Antônio de Jesus, foi Ildefonso Guedes de Araújo.

M: A Praça Rio Branco foi o antigo cemitério até que ano?

F: A Praça Rio Branco foi o antigo cemitério até maio de 1891 e na reforma daquela Praça foi encontrada algumas ossadas.

Foto: Acervo da cidade

M: É verdade que o Governo da Bahia teve sua sede em Santo Antônio de Jesus?

F: A sede do Governo esteve aqui, é verdade, quando Landulfo foi nomeado Interventor Federal (denominação do governador nomeado pelo Presidente da República), ele fez uma concentração de prefeitos de toda Bahia no município e se mudou para cá com todo o secretariado, e a sede do Governo foi onde hoje é a pousada de Vicente (in memorian), Vila das Palmeiras, na Praça Rio Branco. Ali foi a sede do Governo durante uns 15 dias. Os prefeitos foram reunidos para discutir problemas e planos do Estado.

M: Fale um pouco sobre essas autoridades, a começar por Félix Gaspar:

F: O Félix Gaspar de Araújo e Almeida, que é o velho de Conceição do Almeida, morava em uma fazenda que é bem perto dos limites de Santo Antônio de Jesus e se mudou para a cidade, ele era médico e ao mesmo tempo comerciante político, era o chefe do Partido Conservador, o filho dele era Félix Gaspar de Barros e Almeida e chegou a ser Ministro da Justiça.

M: Sobre o Antônio Fraga?

F: Antoninho Fraga como nós chamávamos com muito carinho, era um santoantoniense interessante porque ele exerceu vários cargos políticos no município, foi prefeito mais de uma vez e dominou a política santoantoniense durante muitos anos, ele chegou a fazer 2 ou 3 sucessores. Foi Deputado Estadual e Federal.

M: Quem foi Viriato Lobo?

F: E sobre Viriato Lobo, ele foi um grande mestre das gerações antigas de Santo Antônio de Jesus, ele era professor público nascido em Oliveira de Campinhos, se não me engano, foi professor em Serra Preta, de lá ele veio como professor para Nazaré e Santo Antônio de Jesus, e aqui ele exerceu as funções de professor público, depois que ele se aposentou, se estabeleceu com escola particular. E tem uma particularidade interessante, ele teve como aluno, entre outros, Isaías Alves. Professor Lobo, quando morreu, ele morava ali no começo da chamada Rua do Riacho.

Foto: Acervo da cidade

M: Nos fale sobre Renato Almeida, Rômulo Almeida, família Barros e Almeida e Silvestre Evangelista:

F: A família Barros e Almeida foi muito importante, porque deu também um outro Prefeito de Santo Antônio de Jesus, além de Renato, que foi o que inaugurou a Avenida Barros e Almeida.

O Renato, foi filho de Félix Gaspar, nasceu e estudou no município e depois foi embora para o Rio de Janeiro, foi ao Itamarati, fez parte da Semana de Arte Moderna, foi autor de vários livros e consagrou-se como grande impulsionador dos estudos folclóricos do Brasil.

Rômulo Almeida não foi santoantoniense, ele nasceu em Salvador, quando o pai dele estava morando lá.

Silvestre Evangelista foi um poeta santoantoniense, depois que ele chegou a idade de prestar serviço militar, mudou o nome para não prestar serviço, o nome dele era Silvestre Evangelista de Santana e passou a se chamar Silvestre Evangelista dos Santos, a conselho do professor Camilo Pereira dos Anjos que foi professor dele por ocasião do sorteio para recrutamento militar. Um sujeito excêntrico que viveu muitos anos, teve uma decepção na publicação de livros e passou a viver recolhido na lá Maria Preta e morreu aos 62 anos de idade no dia 08 de julho de 1921.

M: O que o senhor poderia nos falar sobre Sóter Barros?

F: Um grande maestro da Sociedade Amantes da Lyra, santoantoniense, foi quem substituiu o Canoa como maestro da Filarmônica. Sóter morreu muito pobre e teve que ser acudido por pessoas amigas através de contribuições.

Feira livre na Praça Padre Matheus / Foto: Acervo da cidade

M: De quem foi a ideia de plantar as Palmeiras de Santo Antônio de Jesus?

F: Isso é uma incógnita, quantos anos tem que as palmeiras foram plantadas, nas pesquisas que fiz, cheguei a informação que elas foram plantadas na ocasião em que Pedro Lima era Intendente, não tenho uma data segura, o certo é que elas vinham desde a Rua do Calabar, acompanhando os trilhos da estrada de ferro até a saída do trem depois do prédio da prefeitura.

M: Na sua opinião, qual foi a principal personalidade política na cidade da época?

F: A começar por Isaías Alves, que foi um dos maiores educadores do Brasil junto com Anísio Teixeira. Renato Almeida, que fez parte do movimento modernismo, autor de vários livros e foi do Ministério de Relações Exteriores. Armando Sampaio Tavares, cientista, médico, santoantoniense dos mais ilustres, professor da faculdade de medicina. Landulfo Alves que foi político e agrônomo de alta competência, foi Senador da República e nacionalista, escreveu um trabalho sobre petróleo. Félix Gaspar de Barros de Almeida que foi Ministro da Justiça, substituindo a Seabra no fim do Governo Rodrigues Alves. Destaco como os mais importantes, Manoel José da Paixão Araújo e Félix Gaspar de Araújo e Almeida.

Santo Antônio de Jesus, atualmente / Foto: Reprodução

M: Quais foram os principais fatos políticos e econômicos administrativos ocorridos nos últimos 30 anos que marcou o município?

F: Foi a transformação de Santo Antônio de Jesus em um Polo de desenvolvimento regional, a cidade já nasceu com essa vocação. Porque desde o Padre Mateus que todos da região circunvizinhas, todos vinham para o município, não só para os eventos religiosos como também para as feiras livres e etc. E foi crescendo e ultimamente a cidade emparelha com Feira de Santana.

M: Meus agradecimentos ao Dr. Fernando Queiroz pela entrevista e eu tenho certeza que deve ficar nos anais da história esse bate-papo que vai servir muito para às pessoas que desejam conhecer uma pouco mais sobre a nossa querida Santo Antônio de Jesus.

F: Obrigado a você meu jovem Marcus Augusto por estar ligado na história de Santo Antônio de Jesus. Não podemos deixar o passado desta cidade de lado, ignorar a sua história e viver muito voltado para o futuro é deixar de pensar que somos a consequência do que vivemos. Por isso, existe uma luta pela criação de um Centro de Estudos Santoantonienses para que nós pudéssemos colocar todo material de pesquisas e jornais antigos para exposição para que a população tenha acesso da história do município e isso poderia ajudar e muito a entender o desenvolvimento da cidade e a amá-la de verdade. Valeu jovem Marcus, obrigado!

INFORMAÇÃO:

  • Dr. Fernando Pinto de Queiroz antes de morrer deixou escrito o livro: A Capela do Padre Mateus que conta a história da cidade.
  • Essa reportagem de Marcus Augusto Macedo, com Dr. Fernando foi no ano de 2001, à época, Santo Antônio de Jesus comemorava os seus 121 anos de emancipação política.
  • Até hoje, o tão sonhado Centro de ‘Estudos Santoantonienses’ não foi a frente

Redação: Voz da Bahia

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