Poluição sonora do Carnaval tem impacto direto na vida marinha

Pesquisadores estudaram recifes próximos ao circuito e mais distantes da costa (Francisco Barros/Ibio-Ufba/Divulgação)

No reinado de Momo, Salvador fica entregue a Baco, o deus do vinho, da folia e, em bom baianês, das fuleiragens e aleotrias que são liberadas nos sete dias de Carnaval. Os donzelos desavisados passam aperto em terra firme, onde falta rua para conter tanta alegria. Mas, no fundo do mar, a algazarra aflige é outro tipo de virgenzinho, o Stegastes fuscus, um peixinho que habita recifes de coral e é popularmente conhecido pela alcunha de ‘Donzela’.

Um estudo de cientistas das universidades federais da Bahia (Ufba) e Rio Grande do Norte (UFRN) comprovou que a poluição sonora gerada em terra, causa impacto significativo na vida marinha. Publicada na revista Biological Conservation, com ajuda da Agência Bori, a pesquisa chegou a essa conclusão após medir a intensidade acústica (barulho) dos trios elétricos durante o Carnaval de Salvador, no circuito Barra-Ondina, em 2018. 

Foram comparados os comportamentos de peixes que vivem no recife próximo ao litoral, a cerca de 100 metros de onde passam os trios e outros, da mesma espécie, que vivem em um recife similar, mas afastado dois quilômetros ao leste da fonte sonora, onde não havia ruído. 

Os pesquisadores mediram o som fora e dentro d’água, sendo que para este segundo caso foi utilizado um hidrofone, equipamento que permite a medição do som de forma submersa. Durante o Carnaval, a média foi de 30 decibéis a mais do que em dias comuns.

Jardineiro do mar’

O peixe Donzela é muito comum no Atlântico Oeste e é conhecido como o ‘jardineiro do mar’ porque geralmente faz um jardim com as algas de que se alimenta. Seu tamanho chega a 20 cm e tem como característica as laterais achatadas e uma mudança de coloração durante as fases da vida. Por ser uma espécie territorialista, tem o hábito de proteger mais suas fontes de alimento do que o habitat, como locais de reprodução ou abrigo, por exemplo, e chega a perseguir os peixes maiores para expulsá-los dos seus domínios, principalmente quando há alimento em abundância.

O caso é que durante o Carnaval, o Donzela fica mais mole e vacilante contra seus predadores; além de diminuir seu ritmo de alimentação. Um dos autores do estudo, o doutor Antoin

Leduc, pontua que a música extremamente alta dos trios elétricos é, na verdade, uma forma de poluição sonora também no ambiente marinho.

Hábitos diurnos

O Donzela é um peixe diurno. A maior parte de sua atividade ocorre entre a tarde e o pôr do sol. A pesquisa foi feita durante esse horário do dia justamente para analisar o peixe em seus momentos de maior ação, já que durante a noite, costuma se abrigar em tocas.

Durante a exposição aos altos volumes, os peixes Donzela não saíram de seus recifes por causa do som, mas fizeram 29% menos tentativas de alimentação do que antes do Carnaval. Além disso, durante o período de festa momesca, a distância para que percebessem um potencial predador e iniciassem a fuga diminuiu em aproximadamente 50% quando comparados aos peixes que estavam no recife distante do carnaval, e, por consequência, do barulho.

“Durante o carnaval, vimos que esse peixe deixou o predador se aproximar mais, ou seja, ele estava distraído pelo barulho e ficou menos atencioso ao risco da chegada do predador, o que evidentemente é perigoso para essa espécie”, explica Antoine Leduc.

Para simular a reação a predadores, eles usaram um peixe falso feito de fibra de vidro com 30 centímetros de comprimento, do tamanho real de uma espécie comum nos recifes. A reação foi medida para 252 peixes donzela diferentes.

“A grande novidade desse estudo é mostrar que o barulho produzido na terra firme pode afetar a vida marinha”, explica o cientista.

Para Antoine, o estudo mostra a importância de se considerar fontes terrestres de emissões acústicas para se planejar o manejo e conservação dos ambientes marinhos costeiros. Além disso, ele questiona “se a intensidade acústica emitida no carnaval é saudável para as pessoas já que até os peixes sofrem impactos negativos dessas emissões acústicas”.

O pesquisador ainda pontua que a espécie Donzela não possui uma sensibilidade acústica avantajada e mesmo assim sofreu impactos significativos em sua rotina em períodos de poluição sonora elevada.

Novas pesquisas

Professor do Instituto de Biologia (Ibio) da Ufba, Francisco Barros participou do estudo e diz que a pesquisa abre horizontes e levanta questionamentos para novas problematizações sobre a poluição sonora no ambiente marinho. Se um peixe territorial como o Donzela sofreu impactos significativos, como podem ser afetadas a vida de outras espécies de peixes com maior sensibilidade acústica? E outras espécies de animais, até invertebrados, que vivem nesse ambiente costeiro?

“O grande alerta é que uma festa do tamanho do carnaval já tem impactos de produção de lixo, impactos sociais e agora mostramos esse novo impacto. Além de toda a perturbação sonora nos seres humanos, estamos afetando negativamente os ambientes marinhos próximos ao circuito”, diz o professor do Ibio.

O órgão responsável pela fiscalização dos decibéis emitidos pelos trios elétricos é a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop). O limite de som que pode ser emitido pelos veículos é de 110 decibéis, o que é equivale a uma turbina de avião, de acordo com o Espaço Aberto da Universidade de São Paulo, que também afirma que o máximo de exposição diária a esse volume permitida para que o ser humano não tenha problemas de saúde é 15 minutos diários.

Ainda de acordo com Francisco Barros, o estudo traz um alerta considerável sobre o Parque Marinho da Barra, espaço de 332.153 metros quadrados, que vai do Farol até o Forte de Santa Maria. “O Parque Marinho da Barra, que foi idealizado pelo coletivo Fundo da Folia e contou com o apoio de vários outros setores e instituições, foi criado por uma demanda real da sociedade soteropolitana. Ali é uma área de riquíssima biodiversidade marinha, com patrimônio cultural subaquático importante e que certamente também sofre com esses efeitos”, aponta.

Antoine Leduc pontua que ainda não se sabe com precisão quais são as consequências dessa poluição sonora para as espécies quando se pensa no longo prazo. É necessário que outros estudos sejam realizados para avaliar como essa fonte de poluição afeta outras espécies e até qual distância da costa os efeitos acústicos do Carnaval impactam o ambiente marinho.

(Correio)