Turista indesejado: ferry afundado pode incentivar instalação de coral invasor

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(Foto: Camila Souza/GOVBA)

Depois de quase meio século cruzando diariamente a baía, as características físicas do velho ferry Agenor Gordilho poderiam determinar um destino óbvio. Qualquer dono de ferro-velho da cidade daria pulos de alegria ao receber um bichão de 71 metros de comprimento e cheio de estruturas metálicas. A solução para a aposentadoria do navio, no entanto, foi o descanso embaixo d’água. O ferry foi afundado intencionalmente na Baía de Todos-os-Santos (BTS), na última semana, como estratégia de incentivo ao turismo de mergulho em naufrágios, e gerou discussões sobre os prováveis efeitos disso no fundo do mar.

O problema é que os afundamentos de embarcações não são um consenso entre pesquisadores da dinâmica e vida marinha. Pelo visto, a ciência ainda não é muito conclusiva se isso é mesmo bom para incentivar a reprodução de espécies, como se costuma acreditar.

A maior parte das evidências indicam que essas estruturas tendem a atrair muito mais do que gerar biodiversidade, afirma o professor Guilherme Longo, do Departamento de Oceanografia da UFRN.

O que mais motiva a contenda é a grande possibilidade de isso facilitar a instalação de espécies invasoras, como já vem acontecendo com o coral-sol e o coral-azul, que não são brasileiros e têm sido grandes inimigos de algumas das nossas espécies nativas. Os dois tipos já foram encontrados no litoral baiano e nordestino e, por onde passam, saem competindo e destruindo as possibilidades de vida de outros animais.

A grande preocupação é a de que o ferry boat possa servir como mais um corredor de expansão para esses corais exóticos, conforme aponta o ecólogo marinho Francisco Barros, professor da Ufba. O coral-sol é visto como o grande vilão. Bonitinho e colorido, ele encanta, mas é uma verdadeira praga por aqui. Natural do mar do Oceano Pacífico, ele teria chegado ao país pegando carona em navios e plataformas de petróleo. 

Guilherme Longo explica que, como essa espécie domina o ambiente, acaba deixando ele bem pouco diverso, o que ameaça a biodiversidade e os benefícios que ela nos dá, como o próprio turismo, que é o que está em questão. Por conta disso, a vida de quem vive do mar pode vir a ser afetada porque essa invasão compromete a alimentação dos peixes. Sendo assim, alguns dos argumentos que costumam ser usados para fazer esses afundamentos podem acabar caindo por terra.

Um exemplo recente desse problema vem acontecendo em cinco navios naufragados artificialmente na costa de Recife, em Pernambuco, o que fez autoridades e cientistas de lá se reunirem, mesmo durante essa pandemia, para discutir uma solução para que o invasor não mate os quilômetros de recifes naturais que, afinal, deram nome à capital. 

Outros problemas 

O negócio é que afundar um navio pode fazer com que se altere as condições de vida no mar. É provável que aconteça de uma espécie resolver sair do seu canto natural para morar na estrutura afundada. Trocando em miúdos, isto quer dizer que, possivelmente, estes navios promoverão uma migração mais do que um incentivo ao aumento da quantidade de vida marinha. 

Doutoranda em Ecologia pela Ufba, a oceanógrafa Alice Reis adianta que é fundamental que haja um monitoramento das espécies que vão se instalar no ferry boat e, no caso de o coral-sol aparecer — “e é improvável que não apareça” —, seja realizada uma remoção deste turista tão indesejado. 

Na visão dela, mais como cidadã do que como cientista, não era necessário ter um novo afundamento de embarcação na cidade. Embora esta não seja a modalidade de turismo mais popular por aqui, Salvador já tem 20 pontos de naufrágio e é, inclusive, uma cidade de destaque na América Latina, ao lado de Abrolhos, Recife e Fernando de Noronha. 

“Temos vários naufrágios históricos aqui. Os naufrágios históricos carregam história, inclusive histórias de guerra, coisa que afundamentos intencionais não têm. [Naufrágio intencional] é usar o valor que um recife artificial criado por um naufrágio histórico tem para justificar o descarte inapropriado do lixo humano. Sinceramente, não vejo pontos positivos. Nós temos uma grande biodiversidade natural, invejada pelo mundo inteiro”, completa ela.

Sem alma

O professor Igor Cruz, do Departamento de Oceanografia da Ufba, concorda que é um “naufrágio meio sem alma”, mas tem um pensamento um tanto diferente. Desde que o navio naufragado Cavo Artemidi passou a ser soterrado por um banco de areia, há uns cinco anos, ele acredita que abriu-se aí uma demanda por um naufrágio que permitisse aos interessados o chamado mergulho técnico, categoria que exige maiores habilidades e bons cilindros de gás. 

“A gente tem poucas opções que permitem esse tipo de ação. Acho que havia, sim, uma demanda do turismo que agora foi suprida. Sei que minha ideia diverge da maioria dos meus colegas, procuro entender os dois lados, fico no meio-termo. Ouvimos autoridades falando que pretendem afundar outros futuramente e não há necessidade”, opina Cruz, que defende, ainda, que é preciso fortalecer a divulgação e preservação dos recifes naturais que são abundantes por aqui. Há previsão de afundamento de outro ferry, o Juracy Magalhães, que está subutilizado.

Bom ou não, o que se sabe é que o naufrágio teve estudos técnicos feitos por uma empresa de engenharia subaquática e licença ambiental emitida pela Marinha do Brasil e Ibama. Agora, ele já está liberado para visitação. No último fim de semana, foi feita uma inspeção no local, que assegurou boas condições para mergulho. Os interessados devem ir ao navio através de operadoras vinculadas à Associação de Mergulhadores da Bahia porque a visitação só é permitida com profissionais certificados.

O CORREIO procurou a Secretaria de Turismo da Bahia (Setur) e o Instituto do Meio Ambiente (Inema) para saber se foi firmado algum acordo de monitoramento das espécies após o naufrágio, mas não teve resposta de nenhum dos dois órgãos até a publicação desta matéria.

(Correio)