Bahia tem meio milhão de jovens entre 18 e 25 anos inadimplentes

Pagar dívidas no prazo certo tem sido um desafio e tanto para os baianos com idade entre 18 e 25 anos. No estado, o número de jovens inadimplentes no mês de abril deste ano chegou a 543.654 mil, um aumento de 10,1% em relação ao mesmo período de 2021, quando 493.706 mil pessoas estavam com débitos em atraso, de acordo com dados do Serasa.

Dentro das estatísticas de inadimplência está a designer Samara Silva, 24, que encontra-se com dívidas feitas em cartões de créditos em atraso. Em meio à inflação alta e diminuição do poder de compra, ela conta que fez uso exagerado do crédito em despesas que ultrapassaram os ganhos mensais.

“Estou com uma dívida de R$ 4,5 mil e não vejo possibilidade de pagá-la agora. Tudo está muito caro, e por isso fica bem difícil arcar com os compromissos, e não se endividar”, fala Samara.

De acordo com ela, os gastos que a fizeram entrar na lista de inadimplentes eram essenciais e pontuais, como consulta médica, e a compra em supermercados. Agora ela segue tentando renegociar a dívida, mas ressalta que não tem sido “nem um pouco fácil”.

“É muito difícil você tentar negociar com bancos. Os juros são exorbitantes e as possibilidades de acordo parecem ser mínimas para o consumidor. Nisso, a dívida vai aumentando, e sair da inadimplência se torna uma realidade cada vez mais distante”, lamenta Samara.

Pandemia e recessão

Já quando o assunto é entrar no rol dos com contas em atraso, as coisas parecem ser mais fáceis. Em abril, o indicador de inadimplência da Serasa Experian indicou que o Brasil alcançou o número recorde de consumidores com o nome no vermelho (66,1 milhões), atingindo a maior quantidade da série histórica do índice, iniciada em 2016. A soma das dívidas chegou a R$ 271,6 bilhões.

No cenário de grande inadimplência, a principal causa é a inflação, somada aos diversos entraves econômicos gerados pela pandemia, segundo o economista da Serasa Experian, Luiz Rabi. De acordo com o especialista, a inflação acumulada em 12 meses chegou a 12,13%, um índice alto, e que afeta diretamente as finanças dos brasileiros.

“Foi justamente quando a inflação superou a casa dos dois dígitos, por volta de setembro e outubro do ano passado, que a inadimplência começou a crescer com força. Isso porque a inflação acaba corroendo a capacidade de pagamento e o poder de compra das pessoas. Dessa forma, a renda gerada pela população brasileira, seja através do trabalho formal ou informal, não é suficiente para chegar até o final do mês, o que acaba levando as pessoas à inadimplência”, analisa Rabi.

No caso dos mais jovens, o índice inflacionário se soma a salários menores, uma vez que essa categoria, geralmente, está em início de carreira, e também suscetível a uma maior instabilidade no emprego.  Além disso, fortes contribuintes para o endividamento e inadimplência são os bancos e empresas de cartões de crédito. Segundo o especialista da Serasa Experian, “eles representam 40% da inadimplência que é gerada no país”.

Nesse contexto, o uso do crédito e de serviços bancários  devem ser avaliados com cautela pelo consumidor. Economista e professor na Academia de Polícia Militar da Bahia, Raimundo Sousa orienta os jovens a analisarem a capacidade de endividamento, antes de usar o cartão de crédito. 

O professor sugere que o consumidor opte sempre por comprar à vista, para obter um desconto, ao invés de fazer compras com cartão.

“Porque o ideal é que a pessoa não comprometa mais de 30% da sua renda líquida com dívidas. Com isso, ela estaria evitando uma série de problemas”, explica Souza.

Apesar do pagamento à vista ser uma alternativa ao endividamento, muitas situações podem influenciar a escolha de outro serviço financeiro para o pagamento de contas, como o uso do cartão de crédito. Para o estudante do curso de edificações, Lázaro Oliveira, 26, o motivo para o uso do crédito foi a perda do emprego. Ele conta que, com isso, não teve outra saída a não ser recorrer a esse recurso para pagar as contas, o mesmo que o levou à inadimplência.

Agora, para contornar a situação, o estudante tem se policiado, e evitado novas dívidas. “Eu não gasto o dinheiro com coisas desnecessárias. Ultimamente, eu tenho feito compras apenas do que realmente preciso, como pagar o aluguel e as contas de energia e água”, conta Lázaro.

Para quitar as dívidas, segundo Rabi, o principal caminho é renegociar. De acordo com ele, “a forma mais fácil é sentar com cada um dos credores e propor uma negociação, de tal forma que as parcelas caibam no bolso da pessoa”, diz.

Mas, quando se trata do público jovem, algumas dificuldades podem surgir no caminho. Isso é o que explica o professor Souza.

“Muitas vezes, o indivíduo inicia no mercado de trabalho há pouco tempo. Então, ele não tem um histórico de vida financeira consolidado. O seu salário no início de carreira é menor. Isso acaba representando uma dificuldade”, frisa.

Nesse cenário, o professor também dá algumas dicas para quem deseja lidar com o dinheiro e cumprir com as suas obrigações financeiras. “A pessoa ter uma planilha com o controle do seu orçamento ajuda bastante. Além disso, pode tentar negociar com o banco a anuidade do cartão de crédito, e a fazer acordo que não comprometa ainda mais o seu orçamento”, explica. (ATarde)