O Voz da Bahia relembra a entrevista de Dr. Fernando Queiroz que conta curiosidades do passado de S. A. de Jesus

Neste ano de 2021, Santo Antônio de Jesus está comemorando seus 141 anos de emancipação política. Em homenagem à cidade, o Voz da Bahia relembra uma entrevista do repórter Marcus Augusto, gravada no ano de 2000, com o saudoso Dr. Fernando Pinto de Queiroz (in memoriam), advogado, historiador e autor do livro A Capela do Padre Mateus que revelava a história e curiosidades do passado da famosa Terra das Palmeiras. Leia a matéria completa e o interessante passado do município abaixo:

Marcus Augusto: Quais as primeiras tribos indígenas que habitavam Santo Antônio de Jesus?

Fernando Queiroz:As tribos indígenas eram nômades, de modo que a rigor não habitavam no sentido de permanecer durante muito tempo um determinado lugar. Elas passavam por certo local enquanto estivesse oferecendo aos seus integrantes materiais de coleta e pesca aos quais se dedicavam. As tribos mais avançadas plantavam a mandioca e faziam suas ocas provisórias, temos a passagem de tribos pelo território de Santo Antônio de Jesus, e não a habitação. Em resumo, as tribos de língua Tupi, os Tupinambás, Cariris que foram posteriormente trazidos do nordeste para os aldeamentos de Santo Antônio da Aldeia e lá na Serra da Jiboia, tivemos o aldeamento da Pedra Branca”.

Marcus Augusto: Qual a importância da igreja para a fundação de Santo Antônio de Jesus? E o famoso ‘Padre Mateus’ o que se pode contar sobre ele?

Fernando Queiroz: “Devo dizer que Santo Antônio de Jesus não é uma cidade fundada, planejada, mas sim nascida em torno de uma capela, que foi erigida a partir de 1776 em terras doadas pelo Padre Mateus de Azevedo, que adquiriu um sítio na região e deste sitio ele desmembrou uma parte e doou para a ereção desta capela em louvor a Santo Antônio de Jesus. Formou-se uma irmandade que contribuiu com um dízimo para erguer a capela, que ficou pronta em 1777 para 1778. Em torno da capela, começaram a surgir casas residenciais de pessoas que moravam na roça, vinham assistir os atos religiosos e começaram aqueles que podiam mais construir suas residências nas proximidades da igreja para que viessem para as missas, batizados e casamentos. O Padre Mateus tinha um oratório a princípio na casa dele, após a construção da capela ele transferiu todo seu material religioso. Em torno desta capela foi formada a Praça denominada do Padre Mateus. Em período de chuva era ruim a passagem de um lugar para outro”.

Praça Padre Mateus

Marcus Augusto: Quando foi que Santo Antônio de Jesus passou a categoria de Vila?

Fernando Queiroz: “Apenas em 1880, foi a Lei número 2.952 do governo provincial de 29 de maio de 1880, que elevou a então freguesia de Santo Antônio de Jesus a categoria de Vila. Então, essa é a data oficial, já se comemorou até o centenário da criação da Vila. Fiz parte da comissão de organização dos festejos do centenário da criação da Vila, naquela época o prefeito era Ursicino Pinto de Queiroz e elaboramos uma programação, e até então, eu não tinha percebido um detalhe, que, na verdade, a emancipação político-administrativa não adveio apenas na lei 2.952, a emancipação só se efetivou em 04 de março de 1883, após 3 anos, com a instalação da Câmara Municipal de Vereadores de Santo Antônio de Jesus. Então, naquele dia, às 11h, na casa de Claudemiro Pereira, nas Quatro Esquinas, foi ali onde a Câmara se reuniu pela primeira vez sob a presidência do presidente da Câmara de Nazaré, a quem estávamos subordinados há época. No município foram empossados os primeiros vereadores eleitos de Santo Antônio de Jesus e eleita na mesma oportunidade a Mesa Diretora, cujo presidente era Manoel José da Paixão de Araújo que era chefe do Partido Libertador”.

MA: Quais foram as principais lideranças políticas do município na época?

FQ: As principais lideranças políticas resumindo: Manoel José da Paixão de Araújo, chefe do partido libertador, quem teve a maioria do eleitorado enquanto foi vivo, desde a época da Vila até a República, ele também presidia a Câmara. O vice-presidente era o Padre Cirilo Dias, que era de Jaguaripe. A oposição era constituída de adeptos do chefe do partido conservador, Félix Gaspar de Araújo e Almeida”.

MA: Quem foi o primeiro prefeito de Santo Antônio de Jesus?

FQ: “O primeiro prefeito só veio a surgir com a revolução de 30, porque a princípio a Câmara desenvolvia um duplo papel, legislava e executava. O presidente da Casa Legislativa era quem exercia a função executiva, então, eles os vereadores decidiam e o presidente executava. Então, Manoel José da Paixão de Araújo de 1833 até 1890, foi quem dirigiu o município e sempre na oposição a Félix Gaspar. Na República, surgiu a figura do cargo de intendente, quando se criou o cargo exclusivo para o executivo. Ficou o conselho municipal, que foi eleito pelo povo, com seu intendente. Com a revolução de 30, esse intendente começou a se denominar de prefeito. O primeiro prefeito da cidade foi Idelfonso Guedes de Araújo”.

Estação

MA: A Praça do Rio Branco foi o antigo cemitério da cidade até que ano?

FQ: “Até maio de 1891”.

MA: Verdade que o Governo da Bahia teve sua sede em Santo Antônio de Jesus?

FQ: “Quando Landulfo foi nomeado interventor federal, ele fez uma concentração de prefeitos de toda a Bahia em Santo Antônio de Jesus. Ele se mudou para cá com todo o secretariado. A sede foi a casa onde hoje é a pousada do querido Vicente (in memoriam) Vila das Palmeiras. Ali foi a sede do governo durante 15 dias. Reuniu os prefeitos para discutir os problemas do estado”.

MA: Vamos falar sobre alguns nomes de ruas de Santo Antônio de Jesus que homenageiam figuras que marcaram a história da cidade. A princípio, quem foi Félix Gaspar?

FQ: “Tivemos dois, Félix Gaspar. O Félix Gaspar de Araújo e Almeida, que é o velho de Conceição do Almeida, morava em uma fazenda que é bem perto dos limites de Santo Antônio de Jesus e se mudou para a cidade, ele era médico e, ao mesmo tempo, comerciante, político, era o chefe do Partido Conservador. O filho dele era Félix Gaspar de Barros e Almeida e chegou a ser Ministro da Justiça substituindo Seabra quando foi candidato a Governador da Bahia”.

MA: Antônio Fraga?

FQ: “Antoninho Fraga como chamávamos com muito carinho, era um santoantoniense interessante. Ele exerceu vários cargos políticos no município, foi prefeito mais de uma vez e dominou a política santoantoniense durante muitos anos. Ele chegou a fazer 2 ou 3 sucessores. Além disto, foi Deputado Estadual e Federal”.

MA: Viriato Lobo?

FQ: “Ele foi um grande mestre das gerações antigas de Santo Antônio de Jesus, era professor público, nascido em Oliveira de Campinhos, distrito de Santo Amaro. Se não me engano, foi professor em Serra Preta, de lá veio como professor para Nazaré e Santo Antônio de Jesus. Aqui ele exerceu as funções de professor público e depois que se aposentou, se estabeleceu com escola particular. Tem uma particularidade interessante, teve como aluno, entre outros, Isaías Alves. Professor Lobo como era conhecido, quando morreu, morava ali no começo da chamada Rua do Riacho.”

Praça Padre Mateus 1985

MA: Sobre Renato Almeida e família Barros e Almeida?

FQ: “A família Barros e Almeida foi muito importante, porque deu também outro prefeito de Santo Antônio de Jesus, além de Renato, que foi o que inaugurou a Avenida Barros e Almeida que vai para o São Benedito. O Renato filho de Félix Gaspar, nasceu e estudou no município e depois foi embora para o Rio de Janeiro, foi ao Itamarati, fez parte da Semana de Arte Moderna, foi autor de vários livros e consagrou-se como grande impulsionador dos estudos folclóricos do Brasil.”

MA: Rômulo Almeida?

FQ: Rômulo Almeida não foi santoantoniense, ele nasceu em Salvador, quando o pai dele estava morando lá.

MA: Silvestre Evangelista?

FQ: “Silvestre Evangelista foi um poeta santoantoniense, depois que ele chegou a idade de prestar serviço militar, mudou o nome para não prestar serviço, o nome dele era Silvestre Evangelista de Santana e passou a se chamar Silvestre Evangelista dos Santos, a conselho do professor Camilo Pereira dos Anjos que foi professor dele, por ocasião do sorteio para recrutamento militar. Um sujeito excêntrico que viveu muitos anos, teve uma decepção na publicação de livros e passou a viver recolhido na lá Maria Preta e morreu aos 62 anos no dia 08 de julho de 1921”.

MA: Sóter Barros?

FQ: “Um grande maestro da Sociedade Amantes da Lyra, santoantoniense, foi quem substituiu o Canoa como maestro da Filarmônica. Sóter morreu muito pobre e teve que ser acudido por pessoas amigas através de contribuições.”

MA: Curiosidade, de quem foi a ideia de plantar as palmeiras no município?

FQ: (risos…) “Isso é uma incógnita, quantos anos tem que as palmeiras foram plantadas, nas pesquisas que fiz, cheguei a informação que elas foram plantadas na ocasião de Pedro Lima que era Intendente, não tenho uma data segura, o certo é que elas vinham desde a Rua do Calabar, acompanhando os trilhos da estrada de ferro até a saída do trem depois do prédio da prefeitura”.

MA: Em sua opinião, qual foi a principal personalidade política na cidade da época?

FQ: “A começar por Isaías Alves, que foi um dos maiores educadores do Brasil com Anísio Teixeira. Renato Almeida, que fez parte do movimento modernismo, autor de vários livros e foi do Ministério de Relações Exteriores. Armando Sampaio Tavares, cientista, médico, santoantoniense dos mais ilustres, professor da faculdade de medicina. Landulfo Alves que foi político e agrônomo de alta competência, foi Senador da República e nacionalista, escreveu um trabalho sobre petróleo. Félix Gaspar de Barros de Almeida que foi Ministro da Justiça, substituindo a Seabra no fim do Governo Rodrigues Alves. Destaco como os mais importantes, Manoel José da Paixão Araújo e Félix Gaspar de Araújo e Almeida”.

MA: Quais foram os principais fatos políticos e econômicos administrativos marcantes ocorridos nos últimos 30 anos?

FQ: “Foi a transformação de Santo Antônio de Jesus em um Polo de desenvolvimento regional, a cidade já nasceu com essa vocação. Porque desde o Padre Mateus que todos da região, das cidades circunvizinhas, todos vinham para o município, não só para os eventos religiosos como também para as feiras livres, etc. Ultimamente a cidade emparelha com Feira de Santana”.

Marcus Augusto: Obrigado professor Fernando Queiroz, tenho a certeza que essa entrevista ficará registrada na história de Santo Antônio de Jesus, principalmente para estudiosos, curiosos e nós eternos aprendizes do nosso passado. Valeu!

Fernando Queiroz: “Muito obrigado a você, jovem Marcus! Não podemos deixar o passado desta cidade de lado, ignorar a sua história e viver muito voltado para o futuro é deixar de pensar que somos a consequência do que vivemos, do passado. Por isso, existe uma luta pela criação de um centro de estudos santoantonienses para que pudéssemos colocar todo esse material de pesquisas e jornais antigos para exposição para que a população tenha acesso à história do município e isso tenho a certeza que poderia ajudar e muito a se entender o desenvolvimento da cidade e a amá-la de verdade. Valeu jovem Marcus, você está buscando a história da nossa terra para disseminá-la, isso é para quem admira muito essa cidade. Muito obrigado a você por essa entrevista”.

Faz alguns anos da morte do professor Fernando Queiroz que nos deixou este legado de conhecimento profundo do passado da nossa gente. Essa é mais uma singela homenagem e lembrança do Voz da Bahia para a nossa querida e amada terra. Reportagem exclusiva no ano de 2000 realizada por Marcus Augusto Macedo.