Raul Seixas: o baiano que cantou a rebeldia do rock com sotaque da Cidade Baixa em Salvador

Carteirinha de Raul Seixas no fã clube e que ele fundou, em Salvador / Crédito: Divulgação

Raul Santos Seixas foi muito mais que “o início, o fim e o meio” do rock brasileiro. Foi também, profundamente, baiano. E não só de nascimento. Embora tivesse uma forte influência norte-americana desde a infância — falava inglês fluentemente aos nove anos —, nunca se desvinculou do seu sotaque, da sua infância na Cidade Baixa, nem das raízes de Salvador que formaram o ídolo.

“Quando voltava para o português, ele parecia fazer questão de exagerar nas marcas de baianidade”, escreveu Caetano Veloso em Verdade Tropical, descrevendo o amigo e “rival” musical da juventude soteropolitana.

O início

Raul Seixas e sua mãe

Raul Seixas e sua mãe Crédito: Divulgação

🧒 O início: Cidade Baixa, veraneio e rebeldia precoce

Nascido no bairro da Boa Viagem, Raul viveu uma infância típica de classe média. Morou na Rua Rio Itapicuru, nº 17, onde hoje funciona uma loja maçônica. Passou as férias em Dias D’Ávila, estudou nos colégios São Bento e Marista, mas teve dificuldades escolares: “Repeti cinco vezes a segunda série do ginásio”, contou ele mesmo, embora os registros revelem três reprovações.

Com o irmão Plínio, aplicou uma das suas primeiras “travessuras roqueiras”: roubaram boletins em branco e falsificaram as notas. Os pais só descobriram no ano seguinte, ao tentarem matriculá-los novamente.

O fim

Sepultamento de Raul Seixas em Salvador

Sepultamento de Raul Seixas em Salvador Crédito: Arquivo / Correio

📚 A mistura de Elvis e Gonzagão

A biblioteca do pai e os discos da mãe moldaram o gosto do pequeno Raul. Ele via semelhança entre Elvis Presley e Luiz Gonzaga — ambos tinham a mesma malícia no canto. Seus primeiros amigos de infância eram filhos de norte-americanos que trabalhavam no consulado e, com eles, Raul descobriu o rock. Fundou ainda criança o primeiro fã-clube de Elvis no Brasil e prometeu eterna lealdade ao Rei do Rock.

🎤 O meio: Cine Roma, Irmã Dulce e o embate com a Tropicália

Antes mesmo da adolescência, Raul fundou a banda Relâmpagos do Rock. Sua primeira apresentação foi negociada com ninguém menos que Irmã Dulce, no Cine Roma, templo do rock em Salvador. Enquanto isso, o Teatro Vila Velha pulsava Bossa Nova e nacionalismo tropicalista.

“A empregada lá de casa era minha fã. Caetano era meu inimigo”, contou Raul sobre a rivalidade musical da época, que opunha o rock popular e “alienado” à sofisticação da tropicália. No entanto, tudo isso ficou no passado: “Acabou a besteira”, disse em entrevista anos depois.

❤️ Uma paixão que virou vestibular

Nos anos 1960, Raul se apaixonou pela americana Edith Wisner, moradora de Salvador. O pai dela era protestante e não aceitava o namoro com um músico. Raul fez vestibular para Direito na Ufba apenas para impressioná-lo — e conseguiu. Casou-se com Edith e depois abandonou o curso para seguir o caminho do rock, incentivado por Jerry Adriani, que o levou ao Rio.

🎶 O fim: a morte, o luto e o nascimento do mito

Raul Seixas morreu aos 44 anos, em agosto de 1989, no Rio de Janeiro. O corpo foi velado em São Paulo, mas foi levado para Salvador em meio a protestos de fãs que exigiram um cortejo em carro dos bombeiros. O sepultamento no Jardim da Saudade foi marcado por comoção — e pelo grito que viraria bordão: “Toca Raul!”

“Eles queriam levar Raul para passear, fumar maconha… Diziam que ele estava vivo”, contou Marcelo Nova, parceiro do artista em seus últimos dias.

🌅 Salvador nunca saiu dele

Apesar de sair da Bahia em busca de oportunidades, Raul sempre voltou para Salvador e Dias D’Ávila nas férias. Segundo Sylvio Passos, criador do fã-clube oficial do cantor, Raul mantinha um forte vínculo emocional com a cidade, a ponto de deixar seu acervo pessoal com o amigo baiano. Em cada retorno, dormia no quarto da casa da mãe, no prédio onde morou na Graça.

É ali, entre as ruas da Boa Viagem e os palcos do Cine Roma, que Raul formou sua essência. E é dali que ecoa até hoje seu espírito rebelde, místico e musical.

Porque, como ele mesmo disse, “prefiro ser essa metamorfose ambulante”.

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