Ana Marcela vê Tóquio como última chance e teme intolerância sexual

Foto: Attila Kisbenedek/AFP

Ana Marcela Cunha, 26, aparenta ser uma fortaleza. Dentro do circuito de competições de maratonas aquáticas recebeu de adversárias o apelido de pit bull. Em novembro, ela conquistou seu quarto título mundial. Para terminar a etapa de Abu Dhabi, a última do circuito mundial, em terceiro lugar, ela superou uma queimadura de água-viva no rosto durante grande parte da prova. “Fui nadando e chorando. É uma queimadura dez vezes pior do que em outra parte do corpo. Tentei esquecer, não queria que nada interferisse no resultado”, disse à reportagem.  Na terça-feira (18), ela e Isaquias Queiroz venceram o Prêmio Brasil Olímpico, do COB. Em 2016, após a decepção de um 10º lugar nos Jogos do Rio, recebeu a notícia de que precisaria passar por uma cirurgia para remoção do baço devido à descoberta de uma doença autoimune. “Tá [eu opero], mas me responde: o que preciso para seguir em alto nível?”, perguntou aos médicos antes da cirurgia. Por dez meses, a atleta ainda se sujeitou a tomar elevada quantidade de remédios, principalmente de corticoides. Após operar, ficou 45 dias de cama, se movendo somente com auxílio dos pais.Mais experiente e de volta ao seu ápice, ela é franca em assumir novas verdades na carreira e até mesmo alguns temores. A primeira delas é de que Olimpíada de Tóquio, em 2020, poderá, sim, ser a última chance que terá de conquistar a medalha olímpica. Uma obsessão que a acompanha em sua vitoriosa carreira. “Quanto mais velha vamos ficando, mais difícil vai sendo. Pegamos o ‘startlist’ da última prova para montar a estratégia e vimos que sou uma das mais velhas. Chegarei a Olimpíada com 28 anos. Essa pode ser a minha última oportunidade. Sei que minha vida útil [como atleta] estará chegando ao fim”, afirmou. Ana Marcela tem um currículo invejável. A nadadora, que compete pela Universidade Santa Cecília, foi eleita na última segunda (17), pela quinta vez, a melhor atleta do mundo em águas abertas. Acumula, também, uma série de medalhas em mundiais e de patrocínios pessoais. Mesmo assim, ainda falta para sua coleção a láurea olímpica. “Tenho um objetivo claro na minha carreira que é conquistar essa medalha. Espero que isso seja possível. Vou fazer de tudo, mas o mais importante é ser feliz. Se em algum momento eu estiver de saco cheio, não vou continuar fazendo”, disse Ana Marcela.

Ela já não é mais a menina que chegou com 14 anos a Santos como uma promessa. Hoje, a nadadora puxa a fila das atletas mais experientes do circuito. Entre os nomes com mais peso só é mais nova que a italiana Racheli Bruni, 28, medalha de prata nos Jogos Olímpicos do Rio. “Por isso não posso pensar tanto em 2020. Tenho muitos compromissos antes. Idealizamos chegar bem na prova daqui a uma semana, um mês.” Desde a perda da vaga para os Jogos de Londres, em 2012, ela trabalha com uma equipe multidisciplinar. Entre os profissionais está a psicóloga Carla di Perro, responsável por ajudá-la com as cobranças pelo desempenho. “Pintar o cabelo, por exemplo, é uma estratégia que criamos. Há uma tensão dois dias antes da prova. Você começa a pensar em descansar, dormir, comer bem, se o corpo está realmente 100%, então uso essa estratégia para ficar mais tranquila”, disse. Outros medos? Ela tem, sim. O grande temor de Ana Marcela hoje recai sobre sua vida pessoal. Em 2015, ela assumiu ser homossexual. Está namorando a também atleta Diana Abla, 23, jogadora de polo aquático da seleção brasileira. “É público, mas não comento”, resumiu. O silêncio de Ana Marcela se justifica por um temor de não aceitação e de intolerância sexual. “Não sabemos quem está do nosso lado. Vemos tanta gente sendo agredida na rua por isso, também. Tenho medo, por isso não me exponho. Saímos juntas, mas evitamos mãos dadas. Existe muita gente que não entende”, afirmou a atleta, que diz ter recebido o apoio dos seus pais durante o período em que revelou sua orientação sexual. “Não entro nunca em linha de tiro, nunca vou entrar. Não preciso bater de frente com ninguém, preciso de pessoas com a mesma ideia que eu”, completou a campeã mundial. Para não desperdiçar o que pode ser o último ciclo olímpico da carreira, apostou na parceria com o técnico Fernando Possenti, com quem viveu sua fase mais vitoriosa, no Sesi-SP, entre 2013 e 2014. “O Fernando é obstinado, obcecado por vitórias, por números e isso faz com que a gente dê certo. Temos uma cobrança em alto nível. Encontramos um no outro aquilo que precisávamos”, contou. Os treino sob o comando de Possenti miram a perfeição como o grande segredo para se manter em alto nível. A cobrança é de nunca relaxar ou se deixar desanimar com um dia de resultados ruins. “Pensamos assim: toda competição é um treino e todo treino é uma competição”, afirmou a nadadora. O segredo da relação considerada perfeita por Ana Marcela é sustentada, também, pelo modo como Possenti consegue fazer a leitura das suas próprias necessidades como atleta. Ao final das provas, saem para jantar e, segundo Ana Marcela, “se entendem por um olhar”. “Ele gosta mais do que eu de números. É de segunda a sábado buscando acertos, só nos desligamos domingo. Aí é ‘off’ total para os dois.” Totalmente recuperada após o momento mais delicado da carreira e disposta a ir ainda mais longe, Ana Marcela Cunha pensa nos Jogos de Tóquio consciente dos próprios medos, mas ainda mais disposta a superá-los. 

PERFIL – Ana Marcela Cunha, 26
Nascida em 23 de março de 1992, em Salvador (BA), é uma das principais nadadoras brasileiras. Especialista em provas em águas abertas, foi eleita a melhor nadadora da categoria pela Fina (Federação Internacional de Natação) cinco vezes (2010, 2014, 2015, 2017 e 2018). Quatro vezes campeã do Circuito Mundial de maratonas aquáticas (2010, 2012, 2014 e 2018), disputou duas Olimpíadas. Ficou em quinto em Pequim-2008 e em décimo na Rio-2016. Não se classificou para Londres-2012 (Aratu)

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