Parto sem dor: método usa técnicas de respiração e relaxamento para ajudar gestantes

Para parir o filho Martin, a atriz Luisa Proserpio, de 38 anos, acreditou na potência do seu corpo: "Vivam intensamente seu parto" (Mariana Franco/ Acervo pessoal)

Tem um belíssimo ditado africano que diz: ‘É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança’. A sabedoria ancestral é incontestável. Mas, e quem educa a mãe? Eu, que o mais próximo que cheguei dessa realidade foi sendo tia de cinco, madrinha de dois e ‘mãe de pet’, me peguei pensando que esse papel é dos médicos, da família da grávida e de toda a sociedade. Afinal, para cobrarmos políticas públicas e garantias constitucionais para as mulheres, precisamos falar sobre a gravidez, inclusive sobre o parto. Sem romantismo.

Pra começar, é necessário saber que Brasil é o segundo país no mundo em número de cesáreas, com 55% do total de partos realizados, atrás apenas da República Dominicana (58,1%). No país, dos 287.166 procedimentos feitos em 2019 pela rede particular, 84,76% foram cesárea. O dado consta no Painel de Indicadores de Atenção Materna e Neonatal, da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Na Bahia, de acordo com a Secretaria de Saúde do Estado (Sesab), em 2020 foram registrados 47% de cesáreas, contra 52,9% de partos normais (ou vaginais); e, em 2021, 46,8% de cesáreas e 53% de partos normais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o número máximo de cesáreas seja de 15%. Isso porque esse tipo de parto gera mais riscos à mãe e ao bebê.

O conhecimento, de fato, é uma ferramenta fundamental para a gestante e todos que estão à sua volta. Segundo a obstetra e ginecologista Ludmila Andrade, os motivos que levam o Brasil a uma elevada faixa de cesarianas são, sobretudo, a falta de informação e a assistência de saúde inadequada. “O que faz as mulheres acharem que a cesárea é a melhor opção é a impressão que, por ser um evento controlado, traria menos riscos e uma maior segurança, o que não é realidade. A tecnologia e os conhecimentos na área médica fazem com que a cesariana seja um procedimento seguro na maior parte das vezes, mas ainda há maior risco de infecção, hemorragia, complicações pós-cirúrgicas, além da recuperação da mãe ser mais lenta”, explica.

Apesar dos dados alarmantes, nos últimos anos, tem havido um movimento de retorno para um parto normal (através do canal vaginal), e o mais natural possível, focado em menor ou nenhuma interferência cirúrgica e medicamentosa, acompanhamento adequado e técnicas que amenizam o incômodo e as dores da mãe. “O parto humanizado é aquele em que o protagonismo é inteiramente da mulher. É ela que toma a maior parte das decisões sobre o que vai acontecer durante o seu processo de parir”, afirma o obstetra José Carlos Jesus Gaspar, coordenador do Centro de Parto Normal da Mansão do Caminho.

Mais madura e consciente, recentemente ela se submeteu ao parto normal. “Desta vez, procurei um profissional que estivesse de acordo com o parto humanizado, com menor intervenção possível. Meu obstetra foi muito atencioso, estava sempre a postos para esclarecer minhas dúvidas. Também aprendi técnicas de respiração para amenizar as dores, além de ter contado com o suporte integral do meu marido, o acolhimento da família e uma rica troca de experiências com as amigas-mães”, relata.Mãe de Enzo, de 10 anos, e de Maria, de um mês, Fernanda Gonçalves, 38, vivenciou uma diferença enorme entre seus dois partos.

Mesmo vindo de uma família de mulheres parideiras e contando com uma equipe médica particular, na época da primeira gravidez ela não teve as informações que precisava e foi induzida ao parto cesáreo agendado. “Na primeira gestação, eu estava passando por um processo de mudança em muitos sentidos. Não consegui focar em me preparar melhor, apesar de ter sido um momento de muito amor. Sem orientação, acabei parindo de cesárea pré-agendada. Meu filho ainda estava com 36 semanas e cinco dias, quando o ideal, hoje eu sei, é de, no mínimo, 38 semanas”, relembra a fisioterapeuta.

Fernanda não sabia, mas se valeu do Método Psicoprofilático, introduzido na Bahia ainda nas décadas de 1960 e 1970, pelo ginecologista e obstetra Gerson de Barros Mascarenhas, um dos pioneiros do parto humanizado no Brasil. A base do método é a educação, aliada a técnicas da respiração e relaxamento, que promovem a formação de reflexos condicionados favoráveis e levam ao alívio da dor.

Para ter seus dois filhos, outra Fernanda, a Carvalho, também se beneficiou desse expediente. A jornalista, no entanto, tem bastante conhecimento sobre o trabalho do médico, falecido em 2009, aos 94 anos. Ela acaba de lançar, de forma virtual, o livro ‘A Luz da Maternidade, Relatos de Parto Sem Dor Conduzidos por Gerson de Barros Mascarenhas’, uma homenagem póstuma àquele que a orientou rumo ao parto natural, sem anestesia e, segundo ela, nem um pouco doloroso. “Através do empoderamento da mulher com informações, exercícios de consciência e técnicas de respiração e relaxamento, ele ensinava gestantes de todas as classes sociais a parir sem sofrimento, muito antes de se falar sobre o parto humanizado ”, afirma.

O obstetra e ginecologista José Carlos Jesus Gaspar, 67, conheceu Dr. Gerson e, já há algum tempo, aplica as técnicas consolidadas por ele. “Enquanto profissional, a gente precisa ouvir muito a mãe, para que ela se manifeste. A mãe traz toda uma história de vida que deve ser considerada. O método de Dr. Gerson é muito no sentido desse acolhimento, do suporte psicoemocional e em todas as suas questões”, afirma o coordenador do Centro de Parto Normal da Mansão do Caminho.

Novidade para a época

As mulheres da família de Rosina Bahia Alice Carvalho dos Santos, 74, eram atendidas por Gerson Mascarenhas. Ela própria teve os três filhos através das mãos do obstetra, e se lembra dele como um homem “alto, esguio, gentil, atencioso, uma pessoa fraterna”. Entre os aprendizados que transmitiu, o do controle da respiração foi um dos mais importantes. “Era uma novidade na época. Eu ia para as reuniões no consultório dele, na avenida Afonso Celso, como se fosse uma aula. Me ajudou, principalmente, no trabalho de parto, durante as primeiras contrações, o rompimento da bolsa, quando a gente vai pro hospital”, lembra a presidente de honra da Liga Álvaro Bahia, mantenedora do hospital Martagão Gesteira.

Nem mesmo as mudanças de percurso dos primeiro e segundo partos abalaram a confiança de dona Rosina. O primogênito estava com o cordão umbilical em volta do pescoço e o segundo veio ao mundo 28 dias antes do previsto. Apesar das condições adversas, o parto dos dois foi normal. Com a caçula houve todo um preparo para que ela nascesse em um ambiente mais acolhedor (apesar de hospitalar): a luz do foco cirúrgico foi apagada e o ar-condicionado, desligado. Quando a menina nasceu, Dr. Gerson a colocou em cima da barriga da mãe: “Ela ficou até passar o sangue do cordão umbilical quando, então, foi cortado. Ele me disse que as crianças que fazia isso, eram mais calmas. De fato, minha filha pouco chorou. Sempre foi calminha”, conta dona Rosina. Isso, há 46 anos.

Hoje em dia, algumas clínicas, maternidades e hospitais particulares e públicos têm se munido de equipamentos para deixar as mulheres mais confortáveis antes e durante o parto, como: cadeira especial para quem pretende parir de cócoras, piscina aquecida, bola de pilates para melhorar as contrações, além de decoração especial. De acordo com o obstetra e ginecologista, Edson O´Dwyer, estas mudanças estão se institucionalizando, principalmente no sistema particular. “No serviço público, a transformação é mais lenta, pois envolve toda uma estrutura complexa. Mas, a perspectiva é boa. Ainda mais porque estão chegando novas gerações com esta mentalidade mais humanizada”, garante ele, que nasceu através das mãos de Gerson Mascarenhas, há 61 anos.

Professor do departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Edson O´Dwyer coordena uma equipe que vem desenvolvendo um trabalho sobre a história da medicina na Bahia. Seu grupo ficou com a parte que remonta a história da ginecologia e obstetrícia: “Nesse resgate, a gente incluiu o Dr. Gerson Mascarenhas. Não o conheci pessoalmente, mas sempre ouvi os meus pais falarem muito bem, tinham uma admiração e uma estima grande por ele”, ressalta.

Em meados dos anos 60, a Bahia passava por um momento de efervescência cultural. Era época da I Bienal da Bahia. Nesse período, Alba Liberato, 77, teve o primeiro dos cinco filhos, a atriz Ingra Liberato. Sempre na estrada com o marido (o artista plástico e cineasta Chico Liberato), e se sentindo saudável, Alba não tinha tanto acompanhamento médico. No sétimo mês, quando não podia mais pegar avião, sossegou. Foi quando uns parentes lhe falaram sobre Gerson Mascarenhas.

”Eu soube que era um homem de esquerda, muito conhecido e responsável”, conta a roteirista e produtora. Bastaram dois encontros antes do parto para entender o processo de respiração proposto pelo médico: “A gente estava numa época em que médicos eram medalhões, e ele era o oposto disso. Se mostrou uma pessoa gentil, delicada, falando só o necessário. A forma que passava seu ensinamento era tão simples, que eu introjetei. Mas, o principal foi mesmo na hora do parto: ele me orientou com a respiração, era tão seguro, que as coisas se coordenaram. Não me lembro de ter sentido dor”.

Respira
Realmente, tudo passa pela respiração. A yoga está aí para provar. Suas técnicas podem ser utilizadas para aliviar ou até mesmo anular as dores da mulher na gestação e durante o parto. Mas, a professora de Hatha Yoga, Roberta Neri, ressalta que é preciso fazer adaptações para o público gestante. “Os exercícios trazem a mente para a presença, ajudam no foco, na concentração. No caso das grávidas, estas respirações sofrem alterações, para que não ocorram hiperventilação, desgaste nem esforço excessivo. É sempre bom lembrar que estas orientações devem estar alinhadas com a equipe que irá acompanhar o parto”, ressalta.

O ginecologista e obstetra José Carlos Gaspar destaca que as técnicas de respiração são muito eficientes quando bem realizadas, mas que a dor, caso aconteça, também faz parte do processo: “Como médico, eu não posso garantir à mulher que ela vai parir sem dor. Na realidade, o que eu digo é que ela pode ressignificar essa dor”.

Ao que parece, Luisa Proserpio, 38, entendeu tudo. Nora de Alba Liberato, a atriz fez vários exercícios, mas, na hora de dar à luz a Martin, 2, acreditou mesmo foi na potência de seu corpo. Inclusive, se permitindo sentir dor: “Com dor ou sem dor, esse é um momento único em nossa vida e merece ser vivido à nossa maneira. Se eu pudesse dizer uma coisa para as mulheres, seria: ‘Vivam intensamente seu parto, sem expectativas, deixando as possibilidades abertas, usando de várias técnicas, mas, principalmente, confiando em si mesma e na natureza’”.

Livro narra a história do médico pioneiro do parto sem dor
“Toda mulher enfrenta o medo do parto. As mulheres que foram atendidas por Dr. Gerson tiveram histórias diferentes para contar. Apesar de eu não ter sido paciente, aprendi com ele o método do parto sem dor”. A declaração é da jornalista e empresária Fernanda Carvalho, de 44 anos. Há 19, grávida do primeiro filho, ela soube que parir sem sentir dor era possível. Foi quando conheceu o ginecologista e obstetra Gerson de Barros Mascarenhas.

“Ele não fez o parto dos meus filhos, mas marcou definitivamente a chegada de Lucca e João Pedro ao mundo”, destaca ela, que no dia 08 de junho, lança, de forma presencial, o livro ‘A Luz da Maternidade, Relatos de Parto Sem Dor Conduzidos por Gerson de Barros Mascarenhas’ (Editora Inverso). Será às 18h, na Livraria Escariz (Shopping Barra).

“No método psicoprofilático, a base é o conhecimento. Ainda nas décadas de 1960-1970, Dr. Gerson realizava reuniões com suas pacientes e, durante esses encontros, elas esclareciam todas as dúvidas com ele, ficando seguras para entender que o parto era um ato fisiológico e que podiam fazer com que aquele processo não fosse doloroso, aplicando exercícios de relaxamento e técnicas de respiração”, explica.

Para a jornalista, o médico se diferenciava dos obstetras da época não só pelo parto sem dor, mas pela sensibilidade na atuação: “Dr. Gerson exercia a medicina como uma religião, uma devoção missionária, em prol do alívio do sofrimento das pessoas”, conta. Quando Fernanda o conheceu, ele já estava com 90 anos, “mas ainda bastante lúcido”. Viria a morrer em 2009, aos 94 anos.

Além da destacada trajetória profissional, Gerson Mascarenhas lutou pelo respeito à vida também na cena política. Acusado de comunista, ele foi preso na ditadura e defendido, à época, por Irmã Dulce, que tinha convocado o médico espírita para ser diretor do seu hospital filantrópico. À frente da Associação Bahiana de Medicina, deu importante contribuição para o movimento de renovação médica no estado.

Livro: ‘A Luz da Maternidade, Relatos de Parto Sem Dor Conduzidos por Gerson de Barros Mascarenhas’, de Fernanda Carvalho, Editora Inverso, 234 págs
Vendas no site www.editorainverso.com.br – De R$52 por R$ 44,20