Após captura de Maduro, oposição venezuelana vive incerteza e cobra eleições e libertação de presos políticos

Declarações do ex-presidente dos EUA, transição tutelada com Delcy Rodríguez e impasse constitucional ampliam frustração entre aliados de María Corina Machado

Foto: José Cruz / Agência Brasil

O impacto político da aliança com um parceiro considerado imprevisível, como o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, tornou-se evidente para a oposição venezuelana após a captura de Nicolás Maduro. Entre integrantes do núcleo político ligado a María Corina Machado e representantes da sociedade civil, o sentimento predominante é de incerteza e frustração quanto aos próximos passos do país.

Embora setores da oposição tenham celebrado a chamada “extração cirúrgica” do herdeiro político de Hugo Chávez, cresce o desconforto com as declarações públicas de Trump. Em Mar-a-Lago, o ex-presidente norte-americano afirmou que María Corina é “uma mulher muito legal”, mas que não teria o respeito necessário para liderar a Venezuela — declaração que gerou mal-estar, especialmente porque a líder opositora chegou a dedicar a ele o Prêmio Nobel da Paz que recebeu.

Impedida de concorrer à Presidência, María Corina conseguiu viabilizar a candidatura de Edmundo González, apontado pela oposição como o verdadeiro vencedor das eleições consideradas fraudulentas. Para alguns opositores, no entanto, a falta de apoio explícito de Trump pode acabar fortalecendo sua imagem interna, ao afastá-la da narrativa de ser uma candidata alinhada aos interesses dos Estados Unidos.

Atualmente, María Corina está em local desconhecido na Europa, após deixar a Venezuela no mês passado. Enquanto isso, Delcy Rodríguez, figura histórica do chavismo e apoiada por Maduro, foi designada por Washington para conduzir uma transição tutelada e tomou posse como presidente interina nesta segunda-feira (5). A escolha gerou questionamentos dentro da oposição, que teme a manutenção do mesmo grupo político no poder.

O cenário abriu um intenso debate jurídico. A Constituição venezuelana prevê dois caminhos em caso de ausência do presidente: a “ausência absoluta”, que exige novas eleições em até 30 dias, ou a “ausência temporária”, que permite ao vice assumir por até seis meses antes da realização de um novo pleito. O Supremo Tribunal de Justiça, dominado pelo chavismo, classificou a situação de Maduro como ausência temporária, validando a posse de Delcy Rodríguez.

Diante disso, opositores avaliam recorrer ao próprio texto constitucional para exigir eleições em até seis meses, buscando apoio internacional da União Europeia e de países da América Latina. O objetivo seria pressionar os Estados Unidos a transferir o poder à oposição, e não a representantes do chavismo.

Apesar da captura de Maduro, a estrutura do regime permanece intacta. Ministros seguem em seus cargos, assim como o alto comando militar, liderado pelo ministro da Defesa, Vladimir Padrino López. Há temor de retaliações e da continuidade da repressão política no país.

A libertação dos mais de 860 presos políticos tornou-se uma das principais reivindicações da oposição. Entre os detidos estão ativistas, militares dissidentes e figuras públicas conhecidas. Para aliados de María Corina, uma anistia ampla seria o principal sinal de que uma mudança real está em curso na Venezuela.

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