Burros e jumentos são inteligentes? Ciência desmente mito da teimosia e da falta de inteligência

Estudos mostram que jumentos, burros e mulas possuem memória, inteligência e comportamento complexo, contrariando um dos estigmas mais antigos da humanidade

A ideia de que burros e jumentos são inteligentes apenas “até certo ponto” ou extremamente teimosos atravessa séculos e aparece em diversas culturas. No entanto, pesquisas científicas mostram justamente o contrário: esses animais possuem memória de longo prazo, relações sociais complexas e grande capacidade de aprendizado.

Além disso, expressões populares como “teimoso como uma mula”, presentes em português, inglês e espanhol, ajudaram a reforçar um estigma que não encontra respaldo na ciência.

Pesquisas comprovam a inteligência dos equídeos

Segundo especialistas, os equídeos — grupo formado por cavalos, jumentos, burros, mulas e outros parentes — apresentam elevado nível de inteligência.

Estudos demonstram que esses animais conseguem armazenar lembranças por longos períodos, reconhecer indivíduos, estabelecer vínculos sociais e aprender tarefas complexas por meio de treinamento.

Por isso, a imagem de animais “ignorantes” ou “teimosos” não corresponde às evidências científicas.

Qual é a diferença entre jumento, burro e mula?

Muitas pessoas confundem esses animais, mas eles não pertencem todos à mesma espécie. Os cavalos (Equus caballus) e os jumentos (Equus asinus) são espécies diferentes. O jumento também recebe nomes como asno, jegue e jerico, termos que, curiosamente, acabaram sendo usados como ofensas no dia a dia. Já burro e mula designam o mesmo tipo de animal: um híbrido gerado pelo cruzamento entre uma égua e um jumento macho. Enquanto isso, quando o cruzamento ocorre entre um cavalo e uma jumenta, nasce o bardoto, híbrido bem mais raro devido às dificuldades na gestação e ao menor desempenho em atividades de trabalho.

Por que eles ganharam fama de teimosos?

De acordo com a professora Chiara Albano, da Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o comportamento dos jumentos é diferente do observado nos cavalos. Segundo a especialista, diante de uma ameaça, o cavalo tende a fugir imediatamente. Já o jumento age de outra forma. Primeiro, ele para, observa e analisa a situação. Somente depois decide qual atitude tomar. Se identificar algum risco, permanece imóvel para preservar sua segurança. Dessa forma, esse comportamento cauteloso acabou sendo interpretado, ao longo da história, como “teimosia”.

Estigma atravessa mais de dois mil anos

A associação entre burros e características negativas existe desde a Antiguidade. Nas Fábulas de Esopo, escritas entre os séculos VI e V antes de Cristo, os burros já apareciam representando personagens considerados vaidosos, ingênuos ou obstinados.

Além disso, no livro “O Asno de Ouro”, escrito pelo romano Lúcio Apuleio no século II, a expressão latina asinina cogitatio (“pensamento de burro”) era utilizada para representar uma ideia considerada insensata.

Essas referências literárias contribuíram para consolidar um preconceito cultural que permanece até hoje.

Ciência muda a forma de enxergar esses animais

Atualmente, pesquisadores defendem que burros, jumentos e mulas merecem ser reconhecidos por sua inteligência, capacidade de adaptação e comportamento social.

Além disso, especialistas ressaltam que compreender as diferenças naturais entre esses animais ajuda a melhorar seu manejo e bem-estar.

Por fim, a ciência mostra que a fama de “teimosos” diz muito mais sobre a forma como os seres humanos interpretaram seu comportamento do que sobre a verdadeira capacidade desses animais.

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