Lula e Flávio Bolsonaro divergem sobre inteligência artificial, mas planos têm lacunas, aponta análise

Levantamento do projeto Ciência nas Eleições identifica diferenças nas propostas para soberania digital, educação tecnológica e direitos autorais, além de pontos que precisam de maior detalhamento.

As propostas de inteligência artificial de Lula e Flávio Bolsonaro apresentam caminhos diferentes para o desenvolvimento tecnológico no Brasil. No entanto, uma análise do projeto Ciência nas Eleições aponta lacunas nos dois planos de governo, especialmente sobre soberania digital, proteção de dados e impactos sociais e ambientais. O levantamento também destaca a necessidade de transformar as diretrizes dos candidatos em medidas concretas, com metas, prazos, financiamento e mecanismos de fiscalização.

Soberania digital marca diferença entre os planos
O plano de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) propõe ampliar a capacidade brasileira de desenvolver e operar tecnologias estratégicas. Entre as iniciativas estão supercomputadores públicos, modelos de linguagem em português e uma plataforma nacional de dados. Além disso, a proposta prevê cooperação entre universidades, centros de pesquisa e empresas brasileiras para fortalecer a inovação nacional.

Já o plano de Flávio Bolsonaro (PL) enfatiza a privacidade individual, a defesa cibernética e o estímulo ao setor privado. A estratégia busca incentivar o desenvolvimento do ecossistema tecnológico.
Apesar das diferenças, a análise aponta que ambos os programas precisam detalhar como pretendem enfrentar desafios ligados à desinformação produzida com inteligência artificial, ao trabalho por aplicativos e à contestação de decisões automatizadas que prejudiquem cidadãos.

Data centers e impactos ambientais entram no debate
Outro ponto destacado pela análise envolve os impactos ambientais dos centros de processamento de dados, conhecidos como data centers. Essas estruturas demandam grandes quantidades de energia e podem consumir volumes significativos de água, conforme os sistemas de refrigeração utilizados. Nesse tema, o plano de Lula menciona salvaguardas socioambientais, eficiência energética, fontes renováveis e avaliação dos efeitos sobre os recursos naturais e as comunidades locais.

Educação tecnológica e formação profissional
Na área da educação, os dois candidatos apresentam propostas para ampliar a formação tecnológica. Flávio Bolsonaro prevê cursos gratuitos de inteligência artificial, programação, marketing digital, finanças e idiomas para mulheres. O programa também propõe incluir conteúdos como robótica e programação na educação básica. Lula, por sua vez, defende ampliar a formação de profissionais especializados, incentivar tecnologias nacionais e promover a educação digital e o combate à desinformação.

Direitos autorais e proteção dos cidadãos
A análise também aponta lacunas nas propostas sobre direitos autorais na era da inteligência artificial. Um dos desafios envolve a remuneração de artistas e criadores cujas obras sejam utilizadas para treinar modelos tecnológicos. Segundo o levantamento, o plano de Lula prevê a criação de regras específicas para o tema. Já o programa de Flávio Bolsonaro não apresenta uma proposta equivalente.

Outro ponto de atenção envolve o reconhecimento facial na segurança pública e os possíveis vieses discriminatórios dos algoritmos. Os pesquisadores também destacam a importância de mecanismos que permitam contestar decisões automatizadas em serviços públicos.

Essas decisões podem afetar, por exemplo, a concessão de benefícios sociais e a organização de atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS). Por isso, especialistas defendem transparência e garantias para que os cidadãos questionem decisões que considerem injustas.

Planos precisam de metas e financiamento
Além das questões regulatórias, o estudo ressalta a necessidade de definir fontes de financiamento, metas, prazos e responsabilidades para executar as propostas. A articulação entre o governo federal, estados e municípios também aparece como um desafio.

O levantamento conclui que a inteligência artificial representa uma oportunidade estratégica para o desenvolvimento brasileiro. No entanto, aproveitar esse potencial exige políticas públicas consistentes, proteção de direitos e fiscalização. Dessa forma, o desafio para os candidatos será transformar as propostas em ações concretas que estimulem a inovação e a competitividade, sem deixar de considerar os impactos da tecnologia sobre a população.

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