O produtor musical e crítico Solano Ribeiro morreu na madrugada deste sábado (31), aos 87 anos, em São Paulo. Ele estava internado em uma clínica, onde recebia cuidados paliativos durante o tratamento contra um câncer. A morte foi confirmada por um amigo da família. O velório e a cremação estão previstos para este sábado, entre 15h e 17h, no Cemitério e Crematório Jardim da Paz, em Vargem Grande Paulista, na região metropolitana de São Paulo. Solano Ribeiro teve papel fundamental na história dos festivais de música popular brasileira exibidos pela televisão. Seu trabalho ajudou a transformar apresentações musicais em grandes acontecimentos culturais e revelou artistas que marcaram gerações.
Produtor ajudou a consolidar a MPB
A convite de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, Ribeiro trabalhou na extinta TV Excelsior, em São Paulo. Em 1965, produziu o primeiro Festival Nacional da Música Popular Brasileira. O evento ficou marcado pela apresentação de Elis Regina interpretando “Arrastão”, composição de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. A iniciativa também ajudou a popularizar a sigla MPB.
Depois, Ribeiro foi para a TV Record, onde organizou o segundo Festival da MPB, em 1966. Na ocasião, “A Banda”, de Chico Buarque, e “Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, dividiram a primeira colocação.
No terceiro festival, o produtor incentivou a presença de guitarras elétricas na música popular brasileira. A decisão provocou debates em uma época de resistência ao instrumento em determinados segmentos musicais. A vencedora foi “Ponteio”, composição de Edu Lobo e Capinan. O festival também inspirou o documentário “Uma Noite em 67”, lançado em 2010 e dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil.
Carreira também passou por rádio e televisão
Nos bastidores, Solano Ribeiro organizava as competições e ajudava a transformar novas canções em grandes eventos televisivos. O produtor registrou parte dessa trajetória no livro “Prepare seu Coração: a História dos Grandes Festivais”. Em 1976, quando trabalhava na extinta TV Tupi, realizou o Festival Tupi. O cantor e compositor cearense Fagner conquistou o primeiro lugar com “Quem me levará sou eu”, composição de Dominguinhos. Ribeiro também foi sócio-fundador da Rádio Antena 1, em São Paulo. Desde 2006, apresentava na Rádio Cultura o programa semanal “Solano Ribeiro e a Nova Música do Brasil”.
Exílio e retorno ao Brasil
Durante a ditadura militar, Solano Ribeiro deixou o Brasil e viveu na Alemanha. Na emissora Südwestfunk, dirigiu documentários sobre nomes e movimentos da cultura brasileira, incluindo trabalhos relacionados a Gilberto Gil e ao teatro de Ruth Escobar. Em 1972, retornou ao país a convite de Boni para organizar o sétimo Festival Internacional da Canção, exibido pela TV Globo.
Crítico acompanhava novas gerações da música
Em entrevista à Folha de S.Paulo, em 2025, Ribeiro destacou artistas e grupos como Chico Science e Nação Zumbi, Tulipa Ruiz, Tiê, Céu, BaianaSystem e Lenine. Na ocasião, lamentou a falta de espaço para novos músicos na mídia, em comparação com o período dos grandes festivais.
“Existem pelo Brasil centenas de novos músicos, cantores e compositores, mas eles não têm a exposição necessária como no tempo dos festivais que tiveram Elis, Caetano, Gil, Chico, Bethânia e tantos outros”, afirmou. Na mesma entrevista, também avaliou que “a MPB está morrendo”, ao criticar a ampliação do uso da classificação para artistas que cantam em português.
A trajetória de Solano Ribeiro deixa uma contribuição importante para a história da televisão e da música brasileira, especialmente pela valorização de compositores e intérpretes que ajudaram a construir a MPB.



