A cidade de Cachoeira, no recôncavo baiano, foi protagonista de um dos episódios mais importantes da história brasileira: o início do rompimento definitivo com a autoridade portuguesa. Em 25 de junho de 1822, em meio a tensões políticas e ameaças de repressão, autoridades locais reunidas na Câmara Municipal tomaram uma decisão histórica: reconhecer Dom Pedro de Alcântara como regente constitucional e defensor perpétuo do Brasil.
Essa decisão refletia o desejo do povo baiano de ter um governo formado por brasileiros e livre do controle colonial de Portugal, que à época buscava reverter a autonomia já conquistada no território.
O povo enfrentou as tropas portuguesas
Apesar das ameaças de ataque, a população de Cachoeira resistiu. Três dias após a proclamação, uma embarcação militar portuguesa foi enviada para atacar a cidade, mas os moradores reagiram com firmeza: capturaram o navio, em um ato de bravura que se tornaria símbolo da luta pela liberdade.
A violência das tropas portuguesas intensificou o conflito e forçou muitos habitantes de Salvador a fugirem para o interior. Cachoeira e outras cidades do Recôncavo se tornaram refúgio e centro estratégico de resistência, consolidando o apoio a Dom Pedro.
2 de Julho: o desfecho da luta na Bahia
Mesmo após o 7 de setembro, quando Dom Pedro proclamou a independência do Brasil, as batalhas continuaram na Bahia. Somente em 2 de julho de 1823, com a chegada das tropas brasileiras a Salvador, a expulsão definitiva dos portugueses foi concluída.
A vitória consolidou a reintegração da Bahia ao Brasil independente e tornou o 2 de Julho uma data cívica fundamental para os baianos — tão ou mais celebrada que o próprio 7 de setembro.
Tradição mantida viva em Cachoeira
A memória da luta baiana pela independência permanece forte em Cachoeira. Todos os anos, em 25 de junho, o município se torna sede simbólica do governo da Bahia, em reconhecimento à sua contribuição histórica. Eventos cívicos, culturais e religiosos celebram o legado da cidade, considerada “cidade heroica” desde que foi elevada à categoria de cidade.
O historiador Fábio Batista Pereira explica que esse reconhecimento é uma homenagem à bravura do povo do interior:
“É uma justa reverência ao quanto o interior da então província foi fundamental para libertar Salvador dos portugueses.”
Segundo ele, o interesse pelas tradições do 2 de Julho tem aumentado nos últimos anos:
“As pessoas querem saber dessas tradições que têm mais de 200 anos”, afirmou.
Celebrações e símbolos da resistência
Entre os rituais preservados estão:
- O acendimento da tocha do fogo simbólico na Igreja Matriz de Cachoeira
- A busca da Cabocla na vizinha cidade de São Félix
- O desfile do 2 de Julho
- A volta do Caboclo a Cachoeira
Essas manifestações populares mantêm vivo o espírito de luta e liberdade que marcou a independência na Bahia. Como reforça o historiador:
“Cachoeira vive a sua tradição. É uma cidade heroica que continua a inspirar gerações.”


