Morrem 40% mais negros que brancos por coronavírus no Brasil

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Foto: Divulgação

A cada dez brancos que morrem vítimas da Covid-19 no Brasil, morrem 14 pretos e pardos, que em sua soma, representam os brasileiros negros. Os dados são resultados de uma análise da reportagem da CNN com base nos boletins epidemioógicos do Ministério da Saúde.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção dessas populações no Brasil é de 10 brancos para 13 pretos ou pardos. No caso das internações pela doença, há um equilíbrio: negros representam 49,1% dos internados por Covid-19, enquanto brancos representam 49%. Mas na análise das mortes, o descompasso aparece, pretos e pardos representam 57% dos mortos pela doença enquanto brancos são 41% dos mortos.

Denize Ornelas é médica de família e faz parte de um coletivo de estudantes de medicina e médicos negros. Ela explica que a posição social do brasileiro negro dificulta o acesso aos cuidados mais adequados no combate ao coronavírus. “As pessoas negras são mais colocadas no mercado de trabalho informal, tendo muito mais dificuldade de procurar o serviço de saúde no tempo adequado, já chegando em condições piores. São pessoas que também têm uma localização geográfica que não favorece a busca por hospitais, ficando geralmente em pronto-socorros e serviços de saúde periféricos, que vão ter o maior tempo de espera para a transferência pra uma vaga de UTI, por exemplo, além desses serviços serem serviços de qualidade inferior”, defende ela.

Negros na linha de frente

Outro fator que os especialistas afirmam poder explicar esse número é o perfil de quem está na linha de frente e tem contato direto com os infectados pela doença. “Dentre a equipe de saúde, profissionais de saúde, os auxiliares de enfermagem e técnicos de enfermagem também são pessoas negras e isso também os coloca em maior risco de contaminação, adoecimento e óbito”, diz Alexandre da Silva, professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí.

De fato, isso se traduz nos números: entre os profissionais de enfermagem brasileiros, 42,3% são brancos e 53% pretos e pardos, de acordo com a Pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, de 2013, feita pela Fiocruz em parceria com o Conselho Federal de Enfermagem. O levantamento inclui técnicos de enfermagem, auxiliares e enfermeiros.

Falta de dados

Os levantamentos feitos pelos órgãos de controle na área da saúde em governos e municípios ainda apresentam inconsistências. Faltam dados importantes para esclarecer ainda melhor a localização geográfica dos negros vítimas do coronavírus, por exemplo. Pra se ter uma ideia, pelo menos 6.245 pessoas que morreram por Covid-19 no Brasil não tiveram a variável raça/cor registradas ou isso não foi incluído na análise do Ministério da Saúde.

Brancos se recuperam mais

O Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS), grupo de estudos formado por pesquisadores da PUC-Rio, Fiocruz e Grupo DOR, passou a analisar mais de perto essa desproporção. No último dia 21 de maio eles identificaram uma proporção maior entre recuperados brancos. Basicamente, entre os negros, foram 8.963 casos e 4.910 acabaram não resistindo à doença. Já entre os brancos, as mortes foram menores, 3.788, mas com um maior número de casos: 9.998. A chance de recuperação entre brancos é de 62% e entre negros de 45%. Ou seja, a chance de um negro morrer por coronavírus é 38% maior do que a de um branco com a doença.

SP: maior desigualdade

A alta-comissária da ONU para os direitos humanos, Michelle Bachelet, afirmou que, no Estado de São Paulo, as pessoas negras têm 62% mais chances de morrer de Covid-19 do que as brancas.

Especialistas em saúde ouvidos pela CNN alegam que o impacto da doença na comunidade negra já estava previsto justamente pela desigualdade do Estado. Epicentro da doença, a capital paulista é a cidade com maior número de mortos por Covid-19 na América Latina. A ONU alertou no começo da semana que o impacto da doença será desproporcional sobre minorias raciais e étnicas. 

Na última quarta-feira (3), o prefeito Bruno Covas (PSDB) também ressaltou essa diferença. “A população preta tem 37,5% mais chances de óbito do que a população branca na cidade de São Paulo. Isso acontece por duas razões básicas: eles vivem na periferia, onde a letalidade do vírus é maior, e pela prevalência na comunidade negra de comorbidades importantes como a hipertensão e a diabetes”, disse. (CNN)

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