Morte do adolescente estuprado e queimado vivo completa 20 anos; família reclama de demora no julgamento de pastores

Lucas Terra tinha 14 anos quando foi abusado sexualmente e queimado vivo — Foto: Reprodução/TV Bahia

A morte do jovem Lucas Vargas Terra, que foi assassinado na capital baiana em março de 2001, completou 20 anos no domingo (21). Até agora, somente um dos três suspeitos de envolvimento no crime, o pastor Sílvio Galiza, foi condenado. A família segue em pedido de justiça e reclama da demora do julgamento de dois acusados.

Galiza acusado por homicídio qualificado com motivo torpe e ocultação de cadáver e, atualmente está em liberdade condicional. Já os ex-bispos Fernando Aparecido da Silva e Joel Miranda, denunciados a partir do depoimento de Galiza, em 2008, ainda aguardam julgamento.

O crime contra o adolescente Lucas Terra aconteceu em março de 2001, dentro de um templo da Igreja Universal do Reino de Deus, no bairro do Rio Vermelho, na capital baiana. Na época, a vítima tinha 14 anos e foi estuprada antes do assassinato. Lucas foi queimado vivo.

Na época, o pai da vítima apontou como motivo para o crime o fato do seu filho ter flagrado os pastores Joel e Fernando fazendo sexo, com base no testemunho de Galiza, dado depois da condenação.

Em 2008, o pastor Fernando Aparecido da Silva chegou a ser preso, mas em poucos meses, passou a responder o processo em liberdade. Na época, Joel Miranda era pastor da Igreja Universal, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, e agora comanda uma igreja no Rio de Janeiro. Já Fernando Aparecido, que trabalhava no Templo da Pituba, é pastor em Minas Gerais.

Em novembro do ano passado, a 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal decidiu que os pastores vão a júri popular. A data do julgamento ainda não foi marcada por causa da pandemia da Covid-19.

“Eu tenho um filho de 24 anos, hoje médico, ele tinha sete anos quando eu assumir esse processo e essa família enlutada, procura a justiça até hoje”, disse o promotor do Ministério Público da Bahia, Davi Gallo.

Sílvio Galiza cumpriu sete anos de prisão e está em liberdade condicional desde 2012.

“O primeiro dos criminosos, que é o Sílvio Galiza, o comparsa, o coautor também do crime, ele foi condenado a 15 anos e cumpriu sete anos. Eu não tenho nada contra o senhor Fernando, não tenho nada contra o outro acusado, nem com Galiza, eu defendo a sociedade e como defensor da sociedade, eu sinto vergonha do conjunto de leis penais que nós temos no nosso país”, desabafou.

Desabafo da mãe de Lucas

Mãe de garoto assassinado há 20 anos fala sobre demora de julgamento no caso do filho — Foto: Reprodução / TV Bahia
Mãe de garoto assassinado há 20 anos fala sobre demora de julgamento no caso do filho — Foto: Reprodução / TV Bahia

A mãe de Lucas Terra, Marion Terra, fez um apelo para o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) julguem os acusados do crime, mesmo depois 20 anos da morte do filho.

“Essa força que eu tenho, como mãe, é porque eu sei que meu filho, eu não posso mudar nesse plano o que aconteceu, eu não posso trazer meu filho de volta, mas essa justiça que tanto eu quanto o Carlos [pai do adolescente] buscamos durante 20 anos, que completou ontem, que a justiça seja de fato efetivada na nossa vida”, disse.

José Carlos Terra, de 65 anos, pai de Lucas Vargas Terra, morreu em fevereiro de 2019, no Hospital Ernesto Simões, em Salvador. Ele estava internado na unidade e teve uma parada respiratória decorrente de uma cirrose hepática, diagnosticada um antes.

Na época, Marion disse que ele teve o estado de saúde agravado em novembro de 2019, após receber a notícia de que a decisão que indicou o envolvimento do bispo Fernando Aparecido da Silva na morte do filho havia sido anulada pelo Ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), por falta de provas.

“O Lucas não está aqui, mas esses criminosos, eu digo criminosas porque depois de tudo o que aconteceu, em setembro do ano passado, que o STF decidiu o júri popular, foi muito difícil para voltar o processo para Salvador, porque o processo saiu no Diário Oficial em maio de 2020 e só em junho que voltou para Salvador. Em novembro de 2020, eles entraram com recurso novamente, então eu não entendo porque existem tantas oportunidades de recursos, porque eles tem tantas oportunidades através da justiça de manter, de fazer sempre o que eles querem”, desabafou.

A mãe de Lucas reclamou que o TJ-BA não marcou a data de julgamento dos acusados.

“Não marcarem a data do júri, eu sei que é um momento crítico, que nós estamos vivendo uma pandemia, o júri poderia ter sido em março do ano passado, mas onde está a resposta do Tribunal de Justiça? Até hoje o Tribunal de Justiça não decidiu, o júri não avisou a família que o julgamento foi marcada ainda, se está em pauta”.

“Eu quero um júri popular. Isso me machuca muito porque eu já perdi meu filho e eles continuam livres. O Fernando hoje, ele não é mais Fernando Aparecido da Silva, é Fernando Silva. Ele é bispo da Igreja Universal, eles continuam atuando como se nada tivesse feito, eles simplesmente continuaram vivendo a vida deles normalmente como se não tivessem matado Lucas”, concluiu. (G1)