Brasil quer superar seu próprio recorde olímpico: veja as apostas de medalhas do país na Tóquio 2020

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O Brasil chega aos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 com um ambicioso desafio: superar o recorde de medalhas conquistadas na edição anterior, quando tinha mais atletas na disputa e competia em casa, com toda a torcida e a energia da Rio 2016 ao seu lado. Para atingir a audaciosa meta, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) aposta num time de calouros que chegam com status de favoritos em esportes estreantes ―como o skate e o surfe―, além de experientes veteranos que trabalham para voltar ao pódio, desta vez na olimpíada pandêmica, a mais adversa da história recente. “Trabalho com a perspectiva de superar a Rio-2016 quer seja no número de medalhas, quer seja no número de medalhas de ouro, quer seja em número de modalidades que disputaram medalhas”, afirma Paulo Wanderley, presidente do COB.

Ao todo, 301 atletas brasileiros disputam 35 modalidades em Tóquio ―eram 465 esportistas em 2016, a maior delegação olímpica da história do país. E, mesmo mais enxuta, a delegação brasileira espera ultrapassar as 19 medalhas obtidas na edição anterior, quando o Brasil também teve seu recorde de ouros olímpicos (sete) e encerrou a campanha com um honroso 13º lugar na classificação geral.

Mesmo sem torcida e com todas as adversidades que o último ano impôs aos atletas, Paulo Wanderley argumenta que “o ano de 2019 [que seria o último do ciclo olímpico, não fosse o coronavírus] foi melhor que o de 2015, véspera de 2016″ para justificar o objetivo de melhorar o desempenho brasileiro na Olimpíada. Ele ainda lembra o rendimento do Brasil no Pan-Americano de Lima em 2019, quando o país ficou em segundo lugar na classificação geral, algo que não acontecia desde 1963. “Superamos todas as expectativas”, afirmou o presidente do COB. Apesar de esvaziado em público, os Jogos Olímpicos de Tóquio são considerados os maiores da história, com 339 medalhas de ouro em disputa.

Nesta edição, a maior parte da equipe brasileira é novata em olimpíadas. Dos 301 atletas brasileiros no Japão, 31 são medalhistas, 18 campeões olímpicos e 174 estreantes. Também é a delegação com mais mulheres na nossa trajetória. São 140 atletas brasileiras competindo em Tóquio, ainda que a maior proporção feminina em comparação com a masculina tenha sido em Atenas-2004 (49%, contra 46% em Tóquio). Deste total, foram 271 vacinados com a primeira dose e 226 (75%) completamente imunizados com vacinas doadas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), que também repassou o dobro de doses ao Ministério da Saúde brasileiro. O COB não especifica se a porcentagem restante de atletas não quis ou não conseguiu receber a imunização contra a covid-19, que embora recomendada pela organização da competição não era obrigatória.

O EL PAÍS fez um levantamento das maiores apostas de medalhas brasileiras em Tóquio, por ordem de favoritismo, levando em conta a expectativa do COB e o rendimento recente dos atletas.

Favoritos ao ouro

Gabriel Medina na praia de Tsurigasaki, em Ichinomiya, nesta quinta-feira.
Gabriel Medina na praia de Tsurigasaki, em Ichinomiya, nesta quinta-feira.FRANCISCO SECO / AP

O Brasil foi muito favorecido com as chegadas do skate e do surfe, dois esportes que estreiam no cronograma olímpico em Tóquio-2020. É nos dois que o Brasil tem seus principais favoritos à medalha de ouro: Gabriel Medina, bicampeão mundial de surfe e atual líder do ranking internacional, e Pâmela Rosa, campeã mundial de skate em 2019 e também atual líder do ranking internacional, que disputará a prova street feminino. A única ressalva para Medina é o imbróglio recente com o COB, quando foi proibido de levar a esposa Yasmin Brunet como parte de seu staff no Japão.

A seleção masculina de vôlei, que conta com o treinador Renan Dal Zotto recém recuperado de uma intubação por conta da covid-19, também chega a Tóquio favorita ao ouro após vencer a Liga das Nações em cima da forte Polônia. Beatriz Ferreira, que compete no boxe até 60kg, e Isaquias Queiroz, que terá pela frente as provas C1 1000m e C2 1000m na canoagem (e conquistou três medalhas na última Olimpíada) são dois campeões mundiais recentes que também chegam como maiores candidatos ao lugar mais alto do pódio. Por último, a dupla da vela Martine Grael e Kahena Kunze levou o ouro em 2016 e chega bem para repetir o desempenho em 2021. Depois do campeonato olímpico, elas ficaram com o vice no mundial de 2019 e, no último torneio que disputaram contra as melhores do mundo, em abril de 2021 na Espanha, elas saíram campeãs.

Com chances de ouro

Pâmela Rosa na competição que garantiu a vaga dela em Tóquio, realizada em Roma em 6 de junho.
Pâmela Rosa na competição que garantiu a vaga dela em Tóquio, realizada em Roma em 6 de junho. ALESSANDRA TARANTINO / AP

Voltando às novidades, as chances de termos mais de um brasileiro no pódio do surfe e do skate são consideráveis. Ítalo Ferreira, que desbancou Medina no campeonato mundial de 2019, é o maior adversário do favorito pela medalha de ouro. Já no surfe feminino, Tatiana Weston-Webb também deve brigar pelo primeiro lugar. E, no street feminino, Rayssa Leal, a fadinha do skate de apenas 13 anos, é a atleta brasileira mais jovem a participar de uma Olimpíada e quem mais ameaça o ouro de Pâmela.

Com o peso de serem os atuais campeões, a seleção masculina de futebol chega em Tóquio entre as favoritas pelo ouro. Com alguns nomes do time principal, como Daniel Alves e Richarlison, o time do treinador André Jardine só não é o principal candidato porque a Espanha também resolveu levar uma equipe forte ao Japão. O ginasta Arthur Zanetti, vencedor do ouro em 2012 e da prata em 2016, é outro campeão olímpico que estará novamente na briga por outro título nas argolas.

Dentro das águas, onde o Brasil tem tradição olímpica, as esperanças são menores do que em outras edições. Bruno Fratus, que competirá nos 50m livre da natação, é a maior esperança de medalha brasileira nas piscinas japonesas. Já o mar de Tóquio terá Ana Marcela Cunha na maratona aquática, uma atleta que pode sonhar com o ouro pelos resultados recentes, quando perdeu apenas para a holandesa Sharon van Rouwendaal, atual campeã olímpica. Sem sair do litoral, o vôlei de praia é outro esporte em que os brasileiros costumam se dar bem. Em 2016, a dupla Alison e Bruno faturou o ouro no Rio. Desta vez, são Ágatha e Duda quem mais têm chances de vencer a modalidade, por terem ganhado duas das sete etapas mais recentes do circuito mundial do esporte.

Briga pelo pódio

Já imaginou um pódio completamente brasileiro? O fato que seria inédito é possível graças ao skate feminino em Tóquio. Além de Pâmela Rosa e Rayssa Leal, candidatas ao ouro, o Brasil também estará representado na prova por Letícia Bufoni, uma atleta que ficou machucada durante boa parte de 2019, mas esteve entre as protagonistas do circuito mundial entre 2015 e 2018 —e, desde que se recuperou da lesão, já chegou a um quinto lugar no mundial de Roma, no último mês de junho. Bufoni não está entre as favoritas ao ouro, mas pode beliscar um lugar no pódio —por que não ao lado das outras duas compatriotas? Já o skate masculino não tem três fortes candidatos à medalha como no feminino, mas também estará representado por atletas com chances de beliscar um lugar no pódio. São eles Luiz Francisco, Kelvin Hoefler e Pedro Quintas.

Thiago Braz, em setembro de 2020, na competição que garantiu a vaga na Olimpíada de Tóquio.
Thiago Braz, em setembro de 2020, na competição que garantiu a vaga na Olimpíada de Tóquio.ODD ANDERSEN / AFP

Após faturar apenas uma medalha no atletismo em 2016 —o ouro de Thiago Braz no salto com vara—, o Brasil tem como maior esperança em 2021 o velocista Alison Santos, que disputará o 400m rasos com barreiras com boas chances de pódio. A equipe de revezamento no 4x100m rasos, a velocista Erica Sena, o arremessador de pesos Darlan Romani e o próprio Thiago Braz são as outras esperanças de levar medalha no atletismo. Outros nomes conhecidos do esporte brasileiro podem terminar em um dos três primeiros lugares em suas modalidades, como os ginastas Arthur Nory (bronze no Rio), Rebecca Andrade e Flávia Saraiva; os judocas Mayra Aguiar e Rafael Baby (ambos bronze no Rio); a esgrimista Nathalie Moellhausen; o boxeador Hebert Conceição; e o velejador Robert Scheidt que, aos 48 anos, vai para sua 7ª Olimpíada longe da melhor fase, mas com dois ouros, duas pratas, um bronze e um 4º lugar no currículo. Também no judô, o Brasil tem chances de medalha na categoria por equipe, que estreia em Tóquio. Já uma das ausências mais sentidas será a de Fernando Reis, que era favorito à medalha no levantamento de peso mas, a uma semana do seu embarque para o Japão, foi pego no exame antidoping e suspenso das Olimpíadas.

Marta dribla a adversária da China no jogo de estreia da seleção brasileira no Japão.
Marta dribla a adversária da China no jogo de estreia da seleção brasileira no Japão.KOHEI CHIBAGARA / AFP

As mulheres puxam a fila dos esportes coletivos que devem brigar por medalha no vôlei e futebol feminino. As duas fases não são as melhores: enquanto as jogadoras de quadra vêm de um quarto lugar na Copa do Mundo e a última medalha conquistada apenas em 2012, as atletas do campo são tidas como a quinta força no torneio olímpico e não sobem no pódio desde 2008. Porém, seja com José Roberto Guimarães e Fernanda Garay ou com Pia Sundhage e Marta, ambas as equipes têm qualidade para brigar por medalha.

Voltando ao vôlei de praia, a dupla campeã olímpica em 2016 se desfez. Alison virou parceiro de Álvaro, enquanto Bruno Schimidt virou dupla de Evandro. O que significa que, com um medalhista em cada, as duas podem subir ao pódio em Tóquio. Bruno ainda teve uma crise pessoal semelhante a de Dal Zotto. Aos 34 anos, precisou ficar internado por 13 dias na UTI por uma infecção de covid-19, que comprometeu 70% do seu pulmão. Depois de sair do hospital, afirmou por mais de uma vez ser contrário à realização dos Jogos Olímpicos durante a pandemia. (El Paris)