As novelas brasileiras perderam espaço no coração de Regina Pedroso, 63 anos, funcionária pública aposentada. Durante a pandemia, sem saber ao certo o que esperar, ela deu play em Navillera, dorama sul-coreano sobre um idoso de 70 anos que decide realizar o sonho de dançar balé. Desde então, Regina se rendeu aos dramas asiáticos e trocou as longas tramas nacionais por histórias curtas, emocionantes e culturalmente ricas.
Ela não está sozinha. Em Salvador, cresce o número de dorameiros acima dos 50 anos, como a administradora aposentada Uilma Carvalho, 62, que admite já ter passado madrugadas em claro maratonando episódios. “Na minha fase mais viciada, ia dormir às duas da manhã fácil”, conta.
Tramas leves e envolventes
Os doramas se destacam por apresentar histórias com início, meio e fim bem definidos, normalmente com cerca de 16 episódios. Misturam romance, drama, comédia e até suspense, sem deixar de lado aspectos da cultura asiática.
“Você liga a TV e vê tanta notícia ruim, novela cheia de maldade. Já o dorama tem conflito, claro, mas de um jeito que acalma. A gente termina de assistir com o coração quentinho”, resume Andréia Lee, 29, gerente do restaurante coreano Kion, ponto de encontro de fãs do gênero em Salvador.
Representatividade e identificação
Regina se emociona ao se ver representada nas histórias. “É possível ver protagonistas de 80 ou 90 anos contracenando com atores de 40. Eu me vejo ali”, relata. A identificação é tamanha que ela chegou até a estudar coreano por alguns meses.
Outro atrativo apontado por Uilma é o formato mais curto: “A gente não fica preso eternamente àquela história. Isso, para mim, é perfeito.”
Cultura que atravessa a tela
Apaixonada pelas tramas, Uilma foi além: no ano passado, ela e a irmã viajaram à Tailândia para conhecer de perto a cultura que até então só conhecia pela TV. Desde que começou a assistir doramas, passou a se interessar por culinária asiática e tornou-se cliente assídua do restaurante Kion.
“Se falam que tem comida coreana, eu estou dentro”, diz, rindo.
Indústria reage ao fenômeno
O crescimento da base de fãs dos doramas não passou despercebido pelas grandes emissoras e plataformas de streaming. A TV Globo já estuda formatos de novelas mais curtas, com cerca de 60 capítulos e episódios de 30 minutos. A ideia é modernizar a dramaturgia, com menos personagens e roteiros mais ágeis.
Já a HBO Max lançou a série Além do Guarda-Roupa, que mistura atores brasileiros e coreanos e foi gravada no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Segundo a plataforma, o Brasil já é o terceiro maior público de doramas do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da Coreia do Sul.
Mais que entretenimento: um estilo de vida
Para Regina e Uilma, os doramas não são apenas séries. São uma nova forma de enxergar o mundo, de valorizar o afeto, a delicadeza e o respeito. Como Regina resume:
“A hora de ver dorama é o momento de relaxamento do dia. Eu e meu marido temos o combinado de que um não pode assistir sem o outro. É algo que fazemos juntos.”


