Paciente denuncia receita com medicamentos de eficácia não comprovada contra Covid-19 em teleatendimento

Paciente denuncia receita com medicamentos de eficácia não comprovada contra Covid-19 em teleatendimento — Foto: Arquivo pessoal

Uma moradora de Salvador, infectada com a Covid-19, denuncia ter recebido receita com medicamentos de eficácia não comprovada contra o coronavírus, após um teleatendimento pelo plano de saúde Hapvida.

O teleatendimento foi feito por uma médica do Amazonas. O G1 entrou em contato com as assessorias da rede Hapvida da Bahia e do estado amazonense, para saber se o plano tem conhecimento da recomendação de medicação não comprovada e se fiscaliza receitas de remédios sem eficácia, mas ainda não obteve respostas.

O atendimento aconteceu no último domingo (6). Juliane Oliveira, 31 anos, conta que começou a sentir os sintomas da Covid-19 no dia 2 de junho, mas ainda não tinha a confirmação da doença.

“Eu tive febre de 38º e tive dor no corpo e de cabeça. Eu tive os sintomas e tomei paracetamol para abaixar a febre. A febre foi embora logo no mesmo dia. Aí no dia seguinte eu não acordei mais com febre, mas acordei com o corpo todo mole e com sintomas de tosse seca. Aí eu tentei fazer o teleatendimento pelo Hapvida, até porque eles estão indicando que, quando não tiver com sintomas graves não vá há unidade, para não correr mais riscos e ficar mais expostos”.

Sem conseguir o atendimento, Juliane procurou então fazer o teste que detecta o coronavírus por conta própria.

“Como eu estava com sintomas leves, tentei o atendimento na quinta-feira [3 de junho] e não consegui. Aí eu consegui no dia 6, de noite. Quando eu consegui o atendimento eu já tinha feito o exame por conta própria, em uma farmácia de Lauro de Freitas. Eu fiz o antígeno e ele detectou que eu estava com Covid. Eu já estava em isolamento dentro de casa”, conta ela.

Ela repetiu o teste na última quarta-feira (9), no Centro de Testagem da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), que apontou que ela segue com Covid-19, porém com carga viral baixa e deve seguir em isolamento até segunda-feira (14).

Juliane conta que os problemas do teleatendimento começaram antes mesmo da médica emitir a receita.

“Na teleconsulta, a médica me atendeu de camisola, deitada na cama, porque quando você entra no site para fazer a teleconsulta, você é inclusive orientado a como você tem que estar vestido, porque é como se fosse uma consulta no consultório”.

Além da postura inadequada durante a consulta, a médica não pediu a verificação do exame de Juliane, e receitou as medicações de eficácia não comprovadas contra a Covid-19.

“A médica só perguntou o que eu estava sentindo, eu disse que estava com Covid, que fiz o exame que tinha dado positivo, e eu queria orientação do que fazer. Ela só fez perguntar qual foi o primeiro dia que eu senti o sintoma, quais foram os sintomas e o atendimento encerrou nisso. Ela me mandou um SMS com a minha receita, e no SMS tem o link que vai direto para o portal do HapVida, onde aparece o nome da médica e a receita embaixo. Quando eu cliquei, vi que na receita ela tinha colocado Ivermectina e Azitromicina”.

A Ivermectina é um vermífugo indicado principalmente para infecções intestinais. Já a Azitromicina é um antibiótico para tratamento de infeções bacterianas. A Covid-19 é causada por um vírus, o Sars-Cov-2, também chamado de coronavírus, não por uma bactéria. A doença também não tem relação com infecções intestinais.

“Obviamente eu não tomei, porque não tem eficácia. Eu ignorei esses medicamentos, consultei minha irmã que é técnica de enfermagem na hora e ela me disse para não tomar. Eu tomei medicamentos que a gente sabe que pode fazer uso: um antialérgico para tosse, uma dipirona e paracetamol”.

Durante a avaliação final do atendimento, Juliane pediu explicações ao Hapvida, sobre o motivo do plano de saúde autorizar médicos a receitarem medicações que não têm eficiência comprovada, mas ainda não obteve retorno.

“Na avaliação eu dei nota zero, e inclusive coloquei um comentário que eu aguardava respostas e um posicionamento do HapVida, uma vez que esses medicamentos não são medicamentos eficazes no combate à Covid-19, e isso já estava mais do que discutido. Escrevi que eu queria entender como um médico da rede está fazendo uma receita para o paciente com esses medicamentos”. (G1)