Saiba como o caso Daniella Perez, lembrado em série, fez o Brasil parar diante da TV

Foto: Reprodução / GZH

Na virada dos anos 2000, Gloria Perez se viu embalando a urna com os restos mortais da filha, a atriz Daniella Perez, como se estivesse diante de um bebê. O corpo tinha sido exumado do túmulo, no cemitério São João Batista, na zona sul do Rio de Janeiro, depois que a sepultura foi violada e pichada com a frase “a morte não é o fim”, não sem antes ter virado um ponto de peregrinação de gente que atribuía milagres à artista assassinada. 

Ao abrir o caixão para a exumação, a roteirista diz que viu a moça intacta, exatamente como havia sido velada, aos 22 anos de idade, muito embora fossem evidentes, para todos ao redor, os sinais inquestionáveis da decomposição depois de sete anos da morte. 

O evento, contado na minissérie “Pacto Brutal”, é um dos muitos que acrescentam camadas insólitas a um enredo que já é insólito pela própria natureza —o assassinato de uma das mocinhas da novela das oito, levado a cabo pelo ator que era seu parceiro de cena, e com o detalhe essencial de que a vítima era filha da própria autora da trama. Isso tudo no país que tem na teledramaturgia o carro-chefe de sua indústria cultural, ainda mais naquela época. 

O seriado documental estreia nesta quinta na HBO, na esteira do aniversário de 30 anos do caso, em dezembro deste ano. Além dele, a editora Record lança em breve o livro “Daniella Perez: Biografia, Crime e Justiça”, em processo de finalização por Bernardo Braga Pasqualette, mesmo autor de “Me Esqueçam”, sobre o ex-presidente Figueiredo. 

Os dois se debruçam sobre as nuances de um crime que talvez seja o mais ruidoso do mundo da cultura brasileira —uma espécie de variante local do caso Charles Manson, não só pela crueldade de seus pormenores, mas também por ter vítima e algoz orbitando o mesmo universo do showbiz. 

Não à toa, ofuscou até a renúncia de Collor, no mesmo dia. 

“Muita gente se lembra de onde estava quando ouviu a notícia. Marcou o Brasil”, diz Tatiana Issa, que divide a direção de “Pacto Brutal” com Guto Barra. Ela, no caso, era atriz e estava no ar na novela das sete “Deus nos Acuda”, que também tinha no elenco Raul Gazolla, marido de Daniella Perez —que por sua vez era a revelação de “De Corpo e Alma”, novela das oito escrita pela mãe dela, Gloria Perez. 

A proximidade de Issa com o meio ajudou no acesso à roteirista e a globais e ex-globais, como Fábio Assunção, Cláudia Raia e Alexandre Frota, que destilam suas lembranças. 

Além deles, a série traz ainda entrevistas de promotores, investigadores e parentes, que reconstituem a noite do crime e seus desdobramentos. 

Para os brasileiros que talvez não tivessem nascido, a história é a seguinte —o corpo de Daniella Perez, atriz em ascensão na Globo, foi encontrado no matagal de uma então pouco adensada Barra da Tijuca, na noite de 28 de dezembro de 1992, com 18 perfurações, a maioria concentradas na região do coração. O relato de uma testemunha levou a polícia a Guilherme de Pádua, colega de elenco da vítima, e à mulher dele, Paula Thomaz. 

Cada um dos dois foi condenado por homicídio qualificado a uma pena de quase 20 anos de prisão, após o júri popular acatar a tese da acusação de que o casal premeditou o crime —ela, por ciúmes do marido; ele, por vingança contra a autora da novela, já que seu papel na trama vinha sendo reduzido. O ator não queria deixar o romance da trama acabar, é o que defende a tese do seriado. 

Os dois têm versões diferentes. Paula Thomaz nega que tenha participado do crime. Guilherme de Pádua, que em depoimentos à polícia assumira a culpa pelo crime, depois passou a sustentar a tese de que a sua então mulher, tomada de ciúmes pela relação dos dois parceiros de cena, é quem teria se atracado com Daniella Perez no matagal. 

“Pacto Brutal” opta por não reconstituir o assassinato em si, nem a versão da acusação nem as versões da defesa, poupando o espectador do que há de mais de mórbido em obras do gênero “true crime”, e prefere investir na força das descrições tiradas das entrevistas. 

Gloria Perez relata a primeira visão que teve do corpo da filha, estirado e cercado de fotógrafos, e de como tentou fechar os olhos dela, em vão. Raul Gazolla, o viúvo, fala da “certeza de que temos alma”, conclusão a que chegou depois que disse não ter reconhecido no cadáver aquela que havia sido sua mulher, como se o fundamental dela não estivesse mais ali no mato. Mais tarde, no enterro, ele teve um ataque, gritou e caiu em posição fetal, segundo os seus colegas de televisão. 

Alexandre Frota e Cláudia Raia estavam entre os que foram à delegacia logo em seguida ao crime. Ela diz que viu um arranhão no braço de Guilherme de Pádua, ainda antes de ele ser indiciado, e estranhou. “Guardei para mim”, conta. 

Entre os capítulos igualmente insólitos dessa história, a série rememora como os atores da Globo fizeram um mutirão, interfonando a esmo em prédios da zona sul carioca à procura de um foragido Guilherme de Pádua, antes de ele se entregar finalmente. Ou de como Frota e Maurício Mattar é que tomaram a dianteira, subindo numa mureta para acalmar a multidão que se formou para acompanhar o enterro. 

A ideia de um pacto é o que conduz a série, que tem por fio narrativo um longo depoimento de Gloria Perez. “Essa história ganhou várias versões na imprensa, mas a verdade nunca foi contada”, diz Tatiana Issa, uma das diretoras da obra. 

É o que explica por que, diz ela, nem os condenados nem seus advogados à época foram procurados pela produção. 

“Foi uma decisão nossa, como documentaristas”, diz Guto Barra, que divide a direção com ela. “Eles tiveram bastante espaço na imprensa para contar versões do crime, que não foram comprovadas. E, ao contrário do jornalismo tradicional, a gente acha que no documentário não precisaríamos ir para esse outro lado.” 

Não é o que pensa Paulo Ramalho, defensor de Guilherme de Pádua no julgamento, e que é retratado na série como um sujeito histriônico, disposto a causar tumulto. “Como arte, a série será um fracasso, mas como desabafo merece respeito”, diz ele, a este repórter. 

“Só não quero ser rufião da desgraça alheia”, ele completa, evitando falar sobre o caso judicial que o projetou. A repercussão foi tanta que o levou a virar inspiração de personagem na “Escolinha do Professor Raimundo”, o advogado Pedro Pedreira, que contestava até as verdades mais evidentes. 

O fato de a produção não ter procurado os condenados nem os seus defensores foi aventado pela imprensa como explicação para a série ter ido parar na HBO, e não na Globo, onde seria mais natural, já que a emissora carioca não teria topado essas condições. 

Procurada ao longo de um dia, a Globo não respondeu ao questionamento deste repórter. Os diretores negam que coisa do tipo tenha acontecido. 

“A gente já tinha feito vários projetos na HBO e a coisa andou rápido lá”, diz Issa. “E a Globo foi muito generosa em licenciar imagens de arquivo.” 

“Contar a verdade” é o mantra que os diretores entoam, por mais que o caso seja um cipoal de versões e contradições. Tampouco ajuda que jornalistas à época tenham contribuído para confundir o que se dava nas telas e fora delas. 

“Há várias críticas que a gente traz na série, como a questão da culpabilização da vítima e o papel da imprensa”, diz Issa. 

Como mostra a produção, de repente não era mais Guilherme de Pádua quem era acusado de matar Daniella Perez, mas Bira é quem matara Yasmin —o nome dos personagens cravados nas manchetes. 

No enredo de “De Corpo e Alma”, Yasmin tinha um envolvimento com o explosivo motorista de ônibus Bira, embora o seu amor fosse Caio, vivido por Fábio Assunção, que deixava os papéis teen para encarar o galã. Ela era irmã da protagonista, Paloma, interpretada por Cristiana Oliveira. 

Com a novela, que foi ao ar em agosto de 1992, Gloria Perez, discípula de Janete Clair, voltava à TV Globo e assumia a sua primeira trama das oito em voo solo. O enredo principal girava em torno de Paloma, que recebia o coração transplantado de outra mulher, Betina, grande amor de Diogo, papel de Tarcísio Meira. Os dois acabavam se apaixonando, numa narrativa que ainda tratava da ascensão dos góticos e do fenômeno dos clubes das mulheres, com strippers masculinos. 

Daniella Perez, então com 22 anos, era filha da roteirista e uma jovem promessa que havia atuado em novelas como “Barriga de Aluguel” e “O Dono do Mundo” e, antes disso, em “Kananga do Japão”, na Manchete —este último enredo se aproveitava de seus dotes de dançarina, que tinha no balé a sua grande paixão, e se tornou não só seu passaporte para a TV como a fez conhecer o futuro marido, Raul Gazolla. 

“Wishing on a Star”, na versão do grupo feminino Cover Girls, era a canção-tema de Yasmin na trama de “De Corpo e Alma” e ganhou uma onipresença mórbida nas rádios brasileiras após o crime. 

Em outro dos vários aspectos que contribuíram para bagunçar os limites entre ficção e realidade, a música da novela aparecia sempre que os telejornais falavam do crime. 

Ela dá as caras tanto no capítulo da novela em que os atores quebravam a quarta parede para se despedir da atriz, cuja personagem tinha ido viajar na trama, quanto na reportagem em que a jornalista Ilze Scamparini desce uma escada cenográfica para reproduzir a última cena gravada por Daniella Perez antes de morrer. 

O título da música, aliás, era a primeira proposta, depois descartada, para dar nome ao livro que Bernardo Braga Pasqualette está terminando sobre o caso, hoje rebatizado de “Daniella Perez: Biografia, Crime e Justiça”, da editora Record. 

“Foi o crime que marcou a nossa geração”, diz ele, que tinha nove anos na época. Em 1997, o então adolescente tentou acompanhar o julgamento de Paula Thomaz, mas foi barrado, o que não dissuadiu o hoje advogado de, há 30 anos, colecionar recortes e anotações que embasam a sua obra, que inclui uma biografia da atriz. 

Ele tentou falar com Gloria Perez, Guilherme de Pádua e Paula Thomaz, mas as conversas “não evoluíram”. “Tudo bem, faz parte da liberdade de expressão”, ele afirma. 

Segundo Guto Barra, diretor de “Pacto Brutal”, o fato de muitos brasileiros não terem cristalizada na memória a versão consagrada pelo julgamento têm muito a ver com a “coisa imagética” em torno do assassinato, isto é, o intercâmbio entre ficção e realidade que embalou o caso desde o início. 

“Tinha a imagem dos dois juntos na novela”, diz o documentarista. “Até hoje tem gente que acha que eles tinham um caso. Essa influência do poder da imagem criou ruídos na história toda. Você acaba entrando no território da fantasia.” 

Numa polêmica não contada na série, J. R. Duran chegou a fotografar uma modelo num capinzal para um catálogo de 1997 da grife Ellus. A semelhança da pose com a forma como o corpo de Daniella foi achado enfureceu a mãe da atriz. 

A culpa em grande parte é da imprensa, dizem os diretores, muito embora a série documental também gaste uns bons minutos explorando aspectos que são laterais e que dizem mais respeito a preconceitos em voga do que ao crime. 

É o caso de quando o seriado resolve se debruçar sobre o passado dos condenados, com detalhes picantes que tinham feito a festa do jornalismo sensacionalista dos anos 1990. 

Guilherme de Pádua é pintado como um carreirista que causava confusão já nos bastidores de “Blue Jeans”, musical que causou um estouro na virada dos anos 1980 para os 1990 com sua história sobre michês. 

Wolf Maya, diretor do espetáculo, fala em “Pacto Brutal” de como conheceu o jovem vindo de Belo Horizonte numa moto. Fábio Assunção, que estava no elenco, se recorda de um soco cênico que o ator acabou desferindo de verdade. 

Antes de entrar na Globo, Guilherme de Pádua faria um papel semelhante de garoto de programa em “Via Appia”, filme alemão sobre o submundo da prostituição masculina nas saunas de Copacabana, e participaria do show de strip-tease que a travesti Eloína dos Leopardos mantinha na Galeria Alaska, conhecido point gay no bairro da zona sul carioca. 

Já Paula Thomaz é pintada como uma encrenqueira que já havia brigado por ciúmes do marido na Galeria Alaska e que idolatrava entidades místicas que estariam por trás de um suposto sacrifício ritual do qual Daniella Perez foi vítima. Não à toa, diz a série, amparada por uma ocultista, ela morreu em noite de lua cheia. 

É fato que Guilherme de Pádua havia declarado ter um guia espiritual e que um exame constatou que as perfurações no corpo da atriz indicavam o uso de um punhal, nunca encontrado, e não de tesoura, como argumentado pelos réus. Mas fica a dúvida se trazer à luz dados como esse não diz mais respeito a preconceitos da época do que ao assassinato em si da atriz da Globo. 

Bernardo Braga Pasqualette, o autor, diz que “é injusto fazer associações entre a vida dos acusados e o crime”. “As pessoas têm de responder pelo que fizeram e não por outras coisas”, diz, acrescentando que homofobia, dirigida a Pádua, sexismo, a Thomaz, e preconceito contra religiões de matriz africana, dirigido a ambos, sempre pairaram em torno do caso. “Houve uma espetacularização do passado deles.” 

De toda forma, dizem os diretores, algum tipo de pacto entre o casal condenado havia. “As tatuagens genitais eram um indício”, diz Tatiana Issa, se referindo ao laudo que constatou que Pádua tatuou o nome de Thomaz em seu pênis, e que ela tatuou o nome dele em sua vulva antes do crime. 

Outro ponto longe de ser unânime e que é tratado na série “Pacto Brutal” diz respeito à alteração da Lei dos Crimes Hediondos, que na narrativa é apresentada como uma vitória da sociedade contra a impunidade no país. 

De fato, após o assassinato de Daniella Perez, sua mãe encampou uma campanha pela inclusão do homicídio qualificado na Lei dos Crimes Hediondos, que já estava em vigor. 

Nos meses seguintes, Gloria conseguiu ajudar a juntar mais de 1,3 milhão de assinaturas em prol dessa iniciativa e, acompanhada de uma comitiva de globais, as entregou pessoalmente no Congresso e o projeto acabou aprovado. 

Na prática isso significou endurecer a punição a pessoas condenadas por esse crime. Só que não é consenso entre juristas e criminólogos que o endurecimento de penas seja assim o melhor remédio para coibir a criminalidade, sobretudo quando fruto de um caso de comoção popular. 

Em editorial da época intitulado “Justiça, sim, vingança, não”, por exemplo, este jornal criticou a iniciativa, que corrobora parecer de uma parte considerável do mundo jurídico. “Alegações de que a legislação é benevolente em relação aos crimes contra a vida humana são dignos de quem jamais abriu o Código Penal”, diz o texto. “A discussão é importante e deve ser travada, mas em clima de serenidade e com absoluto rigor técnico, jamais sob o jugo da emoção, sempre uma má conselheira.” 

Em liberdade, Paula Thomaz hoje usa outro nome e não fala com a imprensa. Guilherme de Pádua, também solto após cumprir parte da pena em regime fechado, já concedeu entrevistas e fez algumas aparições públicas, como em atos pró-Bolsonaro em Brasília. Hoje pastor batista em Belo Horizonte, a sua cidade natal, ele foi procurado pela reportagem, mas não respondeu até o encerramento da edição. 

Em vídeo em seu canal no YouTube, ele comenta o frisson em torno da série e diz que, ao contrário do que saiu em jornais, não se afastou das redes sociais por causa dela, mas antes disso. “Fiz a pedido de um pastor que me aconselha e me orienta”, diz ele 

PACTO BRUTAL – O ASSASSINATO DE DANIELLA PEREZ 

  • Onde: minissérie em cinco episódios disponíveis a partir de quinta (21), no HBO Max
  •  Classificação: 16 anos
  • Produção: Brasil, 2022
  • Direção: Tatiana Issa e Guto Barra