XV Caminhada pelo fim da Violência toma as ruas pela paz e contra ódio na capital baiana

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Na Bahia, foram contabilizados 127 casos de racismo e intolerância religiosa em 2019. Imagem: Shirley Stouze/A Tarde

Preservação da vida, respeito às religiões, paz e união. Essas foram as bandeiras levantadas por centenas de integrantes do candomblé, na XV Caminhada pelo fim da Violência, Ódio e pela Paz, que ocorreu na tarde de hoje, no Engenho Velho da Federação, em Salvador. Na Bahia, foram contabilizados 127 casos de racismo e intolerância religiosa em 2019, conforme a Secretaria de Promoção e Igualdade (Sepromi).

Acompanhados por um trio elétrico, os adeptos de religiões de matriz africana homenagearam orixás na saída do ato, no final de linha do bairro, com fogos de artifício, cânticos, toques sagrados, chuva de milho e soltura de pombas brancas, defronte ao busto de Mãe Runhó (ialorixá morta em 1975), no centro da praça. A caminhada passou por ruas do bairro a exemplo da Apolinário Santana, Avenida Cardeal da Silva, em direção à Vasco da Gama, e retornou para a praça.

“Hoje [ontem], é mais um dia de luta, 15 de novembro, dia da Proclamação da República, que não nos incluiu. Além da luta, também é um momento de dor como mulher de candomblé, em caminhar pelo bairro e não ter a presença física da religiosa Makota Valdina [morta em março deste ano]. Estou otimista nessa caminha, embora muito pensativa da conjuntura desse ódio religioso. Os impactos são grandiosos não só na forma da violência física, mas como a espiritual e mental. O povo de terreiro está muito tenso”, frisou a Ialorixá Jaciara Ribeiro.

Para alguns integrantes da religião de matriz africana, a mensagem exposta em cartaz próximo ao busto de Mãe Runhó, da educadora, ativista e religiosa Makota Valdina, fortalece o movimento: “Eu não quero que me tolerem, eu quero que respeitem o meu direito de ter a minha crença”, dizia.

Saudações

Os integrantes da caminhada foram saudados por toda a comunidade, por terreiros localizados ao longo do percurso, a exemplo do terreiro do Gantois, a Casa Branca, Oxumaré, o terreiro do Bogum e outros. No final do ato, os integrantes realizaram uma homenagem à Makota Valdina.

“Tenho dois anos de caminhada. Participar desse movimento é o nosso velho grito de guerra contra o desrespeito religioso. A gente sabe que o racismo não dorme, então nós também não temos como dormir. Alguém andou repetindo por aí, que a melhor maneira de brigar contra o racismo seria parar de falar nele. Não, tem que continuar falando para tentarmos minimizar o que o nosso povo preto ainda sofre. A caminhada inteira eu me sensibilizo e, no fim, sempre fica um gosto de quero mais”, disse a religiosa Matilde Charles, 60 anos.

Mesmo em um bairro e uma cidade historicamente ocupada por diversas religiões, comumente, os adeptos do candomblé e umbanda são vítimas cotidianamente do preconceito e intolerância. Ainda conforme a Sepromi, de 2013 à 2019, foram registrados 610 ocorrências de racismo e intolerância religiosa no estado da Bahia.

“É união de todos os terreiros, dos territórios de Salvador, que se encontram nesse movimento. Nesse ato, a secretaria defende a Secretaria de Igualdade Racial, a laicidade do estado e o direito constitucional de todas as pessoas terem a religião que desejar. Acompanhamos pelo Centro de Referência Nelson Mandela, que as maiores ocorrências são contras as religiões afro-brasileiras e isso é um fenômeno que tem relação com o racismo estrutural”, disse a líder da Sepromi, Fabya Reis.

“Existe um crime religioso, precisamos parar com esse crime e precisamos, também, caminhar para um debate inter-religioso para que tenhamos uma vivência de compreensão, amor e entendimento. A caminhada é a melhor forma para barrar um crime religioso. A intolerância religiosa é a nova ferramenta mais sutileza da prática do racismo”, frisou o ialorixá, Edmilson Sales. (A Tarde)

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