Cazuza, Boas Novas mergulha nos anos finais do cantor com sensibilidade e potência

Novo documentário mostra a face mais intensa e criativa de Cazuza durante o enfrentamento da AIDS, sem deixar de lado a irreverência e a força artística que marcaram sua trajetória

Foto: Divulgação

Após uma representação controversa de Cazuza na cinebiografia Homem com H, centrada em Ney Matogrosso, a figura do cantor volta ao centro das atenções no documentário Cazuza, Boas Novas, em cartaz nos cinemas brasileiros. Dirigido por Nilo Romero e Roberto Moret, o filme lança um olhar íntimo e direto sobre os últimos anos do artista, combinando memórias afetivas, vasto material de arquivo e depoimentos de amigos e parceiros musicais.

Com uma parceria pouco comum — Romero vindo da música e Moret da televisão —, o documentário ganha força justamente nesse encontro. Romero, que foi amigo e produtor de Cazuza, também aparece no filme em conversas com entrevistados e conduz parte das memórias que ajudam a costurar a narrativa.

Embora aborde a trajetória do cantor desde sua ascensão com o Barão Vermelho, Boas Novas concentra-se nos anos finais de Cazuza, especialmente após o diagnóstico de HIV, em um período em que a AIDS era ainda mais cercada de estigmas e desconhecimento. O título do filme, inclusive, vem da canção “Boas Novas”, lançada no disco Ideologia (1988), no qual o cantor afirma: “Eu vi a cara da morte, ela estava viva”.

Mas o documentário não se prende ao sofrimento. Pelo contrário: revela como a proximidade da morte impulsionou uma explosão criativa. Entre internações, enfraquecimento físico e pressão da mídia, Cazuza lançou álbuns marcantes, compôs faixas como O Tempo Não Para, Brasil, Blues da Piedade e Faz Parte do Meu Show, e seguiu se apresentando com força e presença de palco.

A produção não ignora os momentos difíceis. Mostra a transformação física do artista, suas negações em entrevistas — como no famoso diálogo com Marília Gabriela —, e a dor do enfrentamento da doença. Mas contrapõe esse retrato com o espírito inquieto, irônico e provocador que sempre o acompanhou. “É como se fosse um gozo, um shot de heroína”, responde ele a Marília, quando questionado sobre “a cara da morte”.

Depoimentos de nomes como Roberto Frejat, George Israel, Gilberto Gil e Ney Matogrosso ajudam a traçar um retrato multifacetado do artista. Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, também participa, revelando bastidores pessoais e afetivos do filho. Já o fotógrafo Flavio Colker, que registrou diversas fases do cantor, ajuda a marcar o início de sua mudança física com o álbum Só se For a Dois (1987).

Mais cru e menos “comportado” que a cinebiografia Cazuza – O Tempo Não Para (2004), Boas Novas entrega um retrato denso e apaixonado do artista que desafiou padrões, enfrentou o preconceito de frente e nunca deixou de criar, mesmo diante da morte. A obra não romantiza, mas também não apaga o brilho. Ao contrário: reafirma a urgência e o impacto de uma arte feita com o corpo, a alma e o tempo que se esvai.

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