Uma pesquisa realizada pela ONG Serenas, que atua no combate à violência de gênero no Brasil, revelou que mais de 40% dos professores já presenciaram outros colegas fazendo comentários machistas e constrangedores sobre o corpo e a aparência de alunas. O levantamento ouviu 1.383 docentes de escolas públicas e particulares em todas as regiões do país, com margem de erro de três pontos percentuais.
Segundo os pesquisadores, os resultados mostram que a escola, que deveria ser um ambiente de proteção e acolhimento, ainda reproduz desigualdades e violências de gênero presentes na sociedade. Em grande parte dos casos, as meninas são as principais vítimas dessas situações.
O estudo apontou que 68% dos professores já ouviram comentários constrangedores sobre o corpo ou as roupas de alunas, sendo que 45% afirmaram que tais falas partiram de outros professores. Entre os relatos, estão observações como “ela já tem corpo de mulher” ou críticas ao peso e às vestimentas das estudantes.
Além disso, 70% dos docentes disseram ter visto meninos sexualizando colegas por causa das roupas ou do comportamento delas. Casos de assédio sexual cometidos por professores também foram reconhecidos por 15% dos entrevistados, incluindo cantadas, olhares invasivos e propostas inapropriadas.
Apesar da frequência, muitos professores não identificam essas situações como violência de gênero. O levantamento mostrou que 15% não consideram piadas ou comentários sexuais sobre alunas como uma forma de assédio, enquanto 16% não veem problema em compartilhar imagens íntimas e 23% acreditam que dizer que “meninas não devem usar shorts na escola” não é uma forma de discriminação.
Há também diferenças de percepção entre homens e mulheres: 69% das professoras reconhecem esses comportamentos como violência, contra 60% dos professores homens.
Para Amanda Sadalla, diretora executiva da Serenas, o resultado reflete valores machistas ainda enraizados. “Os professores reproduzem o que existe na sociedade. É preciso educá-los para que não repitam esses comportamentos diante das novas gerações”, afirmou.
Já Débora Lira, especialista em políticas públicas e gênero da ONG, destaca que falar sobre o tema ainda é um tabu nas escolas. “Há medo em tratar dessas questões, e isso impede o reconhecimento e a prevenção da violência. Quando o assunto é silenciado, ele continua acontecendo”, explicou.
Mesmo com esse cenário, 99% dos professores acreditam que a escola deve atuar na prevenção da violência de gênero, mas apenas 19% se sentem preparados para lidar com o tema. Segundo Lira, a resistência de parte das famílias à educação sexual e à discussão sobre gênero agrava o problema.
“A ausência desse debate deixa crianças e adolescentes mais vulneráveis. Falar sobre o tema é essencial para que aprendam a identificar situações de abuso e saibam se proteger”, concluiu.


