Número de profissionais de saúde contaminados com Covid-19 quase triplica em uma semana na BA: ‘aumento de casos assustador’

-
Foto: Reprodução/TV Bahia

O número de profissionais de saúde contaminados com coronavírus na Bahia quase triplicou no intervalo de uma semana. O boletim divulgado no dia 14 deste mês, pela Secretaria de Saúde do estado (Sesab), indicava 643 funcionários da área infectados pela doença. Nesta sexta-feira (22), sete dias depois, já haviam 1.852 trabalhadores diagnosticados com a Covid-19.

O número de profissionais de saúde contaminados representa um pouco mais de 15% dos 11.941 casos confirmados de coronavírus no estado. A enfermeira especializada em infectologia Olívia Palmeira conta que a situação tem criado um clima de apreensão entre os trabalhadores de hospitais e clínicas de saúde.

“Conheço algumas pessoas que foram diagnosticadas com a Covid-19. Os profissionais de saúde, de uma forma geral, por estarem mais expostos, estão com o psicológico mais apreensivo. Alguns não. Mas diria que a maioria está apreensiva em relação à situação de momento. A epidemiologia já tinha colocado para a gente que teríamos um aumento de casos em maio, na segunda quinzena, a gente esperava um aumento exponencial”, disse a enfermeira, que trabalha no Hospital Cárdio Pulmonar.

“Os profissionais de saúde estão apreensivos por estarem na linha de frente. Esse número crescente de casos de profissionais de saúde gera um estresse na equipe, sem dúvida”.

Enfrentamento diário

A técnica de enfermagem, Bárbara Alves, de 42 anos, testou positivo na segunda-feira (18), após sentir dores no corpo e na cabeça, além de perder o olfato e o paladar na quarta (13).

“É um momento tenso, porque a gente que trabalha direto com os pacientes e tem acontecido um aumento de casos assustador. Querendo ou não, a gente depende de pegar ônibus, muitas vezes cheios, para chegar no trabalho e ir para casa”, disse a técnica.
Bárbara, que trabalha no Hospital Cárdio Pulmonar e no Hospital Couto Maia, mora com a filha, de 11 anos e com a sobrinha, que tem 5. Ela está afastada das atividades e passa a maior parte do tempo dentro do quarto.

“Eu estou fazendo o isolamento social. Fico de máscara dentro de casa o tempo todo, elas ficam de máscara o tempo todo e eu não permito que fiquem perto de mim quando eu tenho que fazer as coisas e depois eu fico dentro do quarto”.

“É complicado, porque eu não tenho quem faça as coisas para mim, eu que tenho que cozinhar, eu que tenho que fazer as coisas para elas comerem. É preocupante, sempre falo para que se elas sentirem alguma coisa, elas me avisarem”, disse.

A técnica não sabe se foi contaminada quando estava trabalhando ou na rua. Ela tem medo de ser infectada pela segunda vez.

“É assustador e inseguro. Eu não sei se eu peguei no trabalho ou na rua, porque eu pego ônibus para ir trabalhar, onde muitas vezes a distância não existe. Eu tenho medo, porque não está comprovado que se você pegar uma vez, não vai ter de novo. É continuar na luta e na guerra”.

“É aquela coisa que você sente que não é mais você. Você se sente outra pessoa, em relação com os colegas, com as pessoas e até com os parentes”, contou.

Já a técnica Lorena Silva, de 39 anos, que trabalha na Unidade de Terapia Intensiva (UTI Covid) de um hospital particular em Salvador, não apresentou sintomas, mas também tem tomado cuidados redobrados durante a pandemia.

“Eu estou bem tranquila, mas medo a gente sempre tem, porque estamos na linha de frente, tendo contato direto com esses pacientes, mas eu estou bem tranquila. Também se a gente ficar se apavorando, a gente não consegue trabalhar”, disse Lorena.
Sem ter direito a acompanhante e receber visitas, por causa das medidas de segurança, os pacientes infectados pela Covid-19 têm os funcionários da saúde como as únicas companhias durante a recuperação.

“A maioria dos pacientes ficam entubados, poucos são os pacientes que ficam na UTI, que continuam lúcidos, sem precisar da ventilação mecânica. Os que estão lúcidos, a gente conversa bastante, a gente coloca uma foto para eles se sentirem mais seguros, porque para eles é meio complicado enxergar só os olhos da gente”, contou a técnica.
“A gente tenta dar a maior atenção possível e os pacientes que estão com a ventilação mecânica também, são pacientes que demandam bastante da gente”.

Duranta a entrevista ao G1, Lorena também falou sobre o momento em que um paciente não resistiu ao vírus e morreu.

“É muito triste, o clima fica pesado e a gente fica muito sentido com a situação, porque é uma família, não é um paciente que a gente perde. É uma família que praticamente não tem contato, porque a família não tem contato com ele e mesmo após o óbito, o contato é quase zero. Então, a gente como profissional se sente um pouco impotente, porque a gente tenta fazer o máximo que pode, a gente está ali lutando o tempo todo e perder um paciente é muito sentido”.
A técnica também se lembrou da cura de um paciente jovem, que ficou 15 dias respirando com a ajuda de ventilação mecânica. Nesse caso, o sentimento foi de “dever cumprido”, já que ele conseguiu se recuperar após passar por um momento grave.

“A gente teve um caso bem interessante de um paciente que esteve extremamente grave e toda equipe ficou envolvida na situação dele, porque é um paciente jovem, que de um dia para o outro desestabilizou e precisou ficar em ventilação mecânica. Ele ficou mais ou menos 15 dias em situação muito grave e foi muito satisfatório quando ele se recuperou e foi para casa”.

“É uma vitória para gente, é uma esperança, porque a gente sabe que com todo o nosso empenho, vai dar certo”, concluiu.

Mortes de profissionais de saúde por Covid-19

De acordo com os dados apresentados pela Sesab, os técnicos em enfermagem são os profissionais de saúde mais contaminados por coronavírus na Bahia, com 490 trabalhadores infectados. Na última quarta-feira, a técnica de enfermagem Jaqueline dos Santos, de 38 anos, morreu em decorrência da doença. Ela trabalhava na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro de Periperi.

Antônio César Ferreira Pitta Jesus, de 48 anos, técnico de enfermagem do Hospital Santo Antônio, administrado pelas Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), em Salvador, também morreu após ser infectado pelo vírus, no dia 22 de abril.

Ele era funcionário do banco de sangue do Hospital Santo Antônio desde 2012 e, segundo o hospital, não tinha contato direto com pacientes internados.

Outras técnicas também tiveram óbitos registrados após serem diagnosticadas com a Covid-19. Foram os casos de Rosana dos Santos Cerqueira, de 44 anos, que integrava a equipe de funcionários da Enfermaria Nossa Senhora de Fátima e de Sônia Maria Silva Barreto, de 54 anos, que foi diagnosticada no dia 21 de abril e estava internada no Hospital Santa Izabel.

Olívia Palmeira afirma que, por estarem em contato direto com os pacientes, os técnicos em enfermagem estão sob maior risco de contaminação. Portanto, é preciso que eles tenham acesso a equipamentos de proteção individual de qualidade.

“Quando a gente pensa na equipe básica multiprofissional, a gente vê o técnico de enfermagem mais inserido no contato direto com o paciente. Em 24 horas, ele vai ter muito mais contato que qualquer outro integrante da equipe. O técnico em enfermagem tem que dar banho, fazer higiene bucal, ministrar medicamento. Acredito que esse contato mais próximo deixa ele mais vulnerável”, disse.

“Se não estiver usando equipamento de proteção individual de boa qualidade, o risco aumenta. Às vezes o profissional encontra dificuldade em pegar o equipamento, ou quando encontra, é de má qualidade”, declarou a enfermeira.

Além dos 490 técnicos ou auxiliar em enfermagem infectados, outros 321 enfermeiras ou enfermeiros também foram diagnosticados com a Covid-19, 222 são médicos, 65 fisioterapeutas, 39 assistentes sociais, 34 farmacêuticos ou bioquímicos, 18 agentes comunitários de saúde, 17 psicólogos, 15 nutricionistas, 13 dentistas, 8 fonoaudiólogos, 4 agentes de combate a endemias e outras 606 pessoas de outras áreas da saúde, totalizando 1.852 profissionais.

Em nota, a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) informou que os números são resultado do novo modelo adotado para registro de casos. Desde o último dia 16, entrou em operação um sistema desenvolvido pela Sesab, que integra bases de dados epidemiológicos e laboratoriais dos governos federal, estadual e municipais.

Ainda segundo a Sesab, o resultado é fruto de uma mudança para cima no patamar de casos notificados, que refletirão não mais apenas os casos confirmados laboratorialmente, mas também todos os casos confirmados por critério clínicos, testes rápidos e testes realizados em unidades privadas.

Sobre as ações da Sesab para evitar a contaminação dos profissionais, o órgão ainda não se posicionou até a última publicação desta reportagem. (G1)