Suposto médico denuncia homofobia e agressões durante prisão em hospital na BA; ele foi solto após decisão da Justiça

Suposto médico deixou a prisão com rosto coberto; advogado acompanhou o cliente — Foto: Joselito Santos/TV Bahia

A defesa do homem que foi preso após se apresentar como médico para família do policial Yago da França Souza Avelar, que sofreu um acidente na Bahia, disse que o suspeito sofreu homofobia e foi agredido com socos e pontapés durante o momento da prisão.
Fábio dos Santos Virgem foi solto por decisão judicial pagamento de fiança, na quinta-feira (10), em Salvador.

O advogado André Franklin Queiroz afirma que as agressões, de acordo com relatos de Fábio dos Santos Virgem, teriam ocorrido “dentro das instalações do estacionamento do Hospital Geral do Estado (HGE)”. A defesa do investigado pretende entrar com uma ação no Ministério Público da Bahia (MP-BA).

“Fábio nos relatou que, no momento da prisão, os policiais utilizaram termos homofóbicos, em seu desfavor. Nós estaremos oficiando o Ministério Público em razão disso”, disse o advogado.

Ainda segundo André Franklin Queiroz, o resultado do exame de corpo de delito feito por Fábio ainda não foi entregue.

“Vamos aguardar a próxima semana, para que a gente possa traçar quais são as medidas que vamos adotar. Diante mão, em razão do que foi dito por eles, certamente buscaremos o MP para que possa tomar ciência do que ocorreu e que foi narrado por ele”.

Em nota, a Polícia Civil informou que não houve menção a orientação sexual do suspeito.

Fábio dos Santos Virgem disse em depoimento na delegacia que era estudante de medicina. A defesa alega que ele sempre se identificou como estudante e não como profissional formado.

No entanto, o investigado afirmou em vários áudios para a família da vítima que seria médico, e que inclusive seria diretor cirúrgico da Organização das Nações Unidas.

Em uma das gravações, Fábio chega a dizer à família do policial que também atuava no Hospital Geral do Estado (HGE), onde Yago está internado.

“Eu sou amigo de Yago, mas sou médico e sou cirurgião também aqui no HGE”, disse Fábio no áudio.
A reportagem questionou à Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) sobre o critério para a entrada de estudantes de medicina no HGE. Em nota, o órgão disse apenas que o caso está sendo investigado, que Fábio dos Santos não faz parte do corpo clínico e que as circunstâncias do acesso à unidade e ao paciente vão ser detalhadas na apuração.

Fábio também se apresentava nas redes sociais como médico. Em uma publicação, ele escreveu que os pacientes o “enxergam como uma pessoa que pode ajudá-los” e que é “ótimo no que faz e ao final de todas as cirurgias é elogiado”.

O investigado também usava um carimbo com o nome “Fábio C. Michel Abrahim”. O advogado dele disse desconhecer o material. O g1 consultou o Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb) e não encontrou o registro que consta no carimbo.

Depoimento à polícia
Nesta sexta-feira (11), o processo em que ele é investigado está em segredo de Justiça. A reportagem teve acesso ao documento antes do sigilo. Na página de cadastro civil, o nome dele consta como Fábio Dias Santana e no depoimento, o nome do interrogado é Fábio dos Santos Virgens.

Durante o interrogatório a polícia perguntou se ele era médico. Fábio respondeu que no Brasil não é, pois não fez o exame Revalida, que é o processo de confirmação dos diplomas de médicos que se formaram no exterior e querem atuar no país.

A polícia também perguntou se ele estava se passando por médico, para ter acesso ao relatório médico de Yago. Fábio disse que apenas atendeu um pedido da família e foi ao hospital colher informações.

Ainda durante o depoimento, ele foi perguntado sobre o país em que se formou como médico. Fábio disse que estudou em Buenos Aires, capital da Argentina, mas não tem diploma porque o dólar subiu e não teve condições de pagar pelos custos

O investigado foi autuado em flagrante por exercício ilegal da profissão e falsidade ideológica. O nome do homem não foi divulgado pela Polícia Civil, que instaurou inquérito e vai apurar também o acesso ao HGE. Ainda não se sabe o que ele pretendia com as gravações.

Prisão no HGE

  • A prisão aconteceu na terça-feira (8), no HGE. Fábio chegou a passar informações à família do policial, que informou que ele era amigo de infância de Yago.
  • No sábado (5), a Polícia Civil chegou a confirmar a morte cerebral do investigador, mas voltou atrás na terça-feira (8) e disse que um médico da equipe que atende Yago pediu novos exames antes de atestar a morte cerebral.
  • Segundo o delegado Maurício Moradilo, da 1ª Delegacia, responsável pelo caso, durante o depoimento, o suposto médico se contradisse, em relação à primeira abordagem, e apresentou versões diferentes sobre sua suposta formação. (G1)