Em Salvador, 10 mil alunos deixam escolas particulares e migram para públicas

Marcelo Oliveira foi prefeito de Mata de São João antes de ser secretário de Educação de Salvador (Foto: André Carvalho/Divulgação)

A pandemia aumentou a demanda pela rede municipal de ensino. Em 2021, o sistema recebeu 10 mil novos estudantes vindos da rede privada e o programa Pé na Escola saltou de 5 mil para 12 mil vagas em menos de um ano. O secretário municipal de Educação Marcelo Oliveira conversou com o Correio sobre o cenário atual das 432 escolas de Salvador. Apenas 30% dos 162 mil alunos estão frequentando as aulas presenciais. O gestor teme que haja dificuldade no aprendizado e diz  que vai apostar em tecnologia para reduzir a defasagem. Ele  responsabiliza também os professores pelo não retorno dos alunos e conta que haverá um cadastro antes da matrícula. Confira a entrevista:

A Secretaria definiu quando vai começar a matrícula? 
No ano que vem. Mas, antes, será preciso fazer um cadastro. Em 2021 houve uma forte migração de alunos de escolas privadas para a rede municipal, principalmente nos anos iniciais e no ensino infantil. Com a interrupção das aulas muitos pais não viram razão para manter as crianças na escola, pagando a mensalidade com elas em casa. Muitas escolas fecharam as portas. Em  2020, o setor que mais desempregou em Salvador foi o da educação. Os pais retiraram os filhos das escolas particulares e matricularam na rede municipal.

Qual foi o impacto disso na rede municipal? 
No ano de 2021 tivemos um acréscimo de 10 mil alunos. Tivemos que arranjar sala de aula, professor, enfim, todo o aparato para receber esses estudantes. Nossa preocupação é com  o que vai acontecer em 2022. Vai continuar nessa intensidade? Ou os pais vão voltar para as escolas privadas que sobreviveram a esse período da pandemia? Por isso vamos fazer esse cadastro. A gente sabe que com a queda nas atividades econômicas muitas pessoas tiveram redução de renda e a inflação está aumentando. Tivemos que recorrer ao tesouro municipal para distribuir cestas básicas para os alunos.

Antes do acréscimo de alunos novos já havia déficit na educação infantil. Como está a situação agora?
Ele aumentou. A gente tem recorrido às escolas de bairro, nas quais compramos vagas, através do programa Pé na Escola. São 12 mil alunos. Eram 5 mil no ano passado. Ampliamos o programa justamente por conta dessa migração que houve da escola privada para a rede municipal. Ao mesmo tempo temos um programa de construção de novas unidades escolares, com investimento de R$ 300 milhões. São mais de 150 escolas que vão passar por algum tipo de intervenção, como construção, reconstrução, reforma ou ampliação, exatamente para fazer frente a essa demanda por vagas.

Como está o cenário das aulas presenciais?
Todas as escolas estão abertas e os professores estão em sala de aula, mas, lamentavelmente, as famílias não estão levando as crianças para a escola. Essa é uma situação muito preocupante. Tentamos voltar em maio, mas a adesão dos alunos foi de menos de 10%. A gente só conseguiu voltar de fato em agosto, quando os professores já tinham tomado a segunda dose da vacina e passado o período de imunização. Mesmo assim, cerca de 70% dos alunos ainda não retornaram.

Por que os pais estão resistindo em levar os filhos para a escola?
Esse afastamento tem origem no tempo excessivamente longo longe da sala de aula por conta da pandemia, mas também por conta da posição obstinada da representação sindical dos professores que insistia em não voltar às aulas enquanto não estivessem completamente vacinados. Isso prejudicou muito o retorno. Eles chegaram a fazer campanha, aterrorizando os pais dizendo que se as crianças fossem para a escola iriam morrer, levar o vírus para casa e matar todo mundo, o que carece de verdade, é uma falácia. Todos os estudos mostram que o retorno às aulas em outras cidades e países não causou nenhum impacto sobre a curva de transmissão da covid-19. Isso prejudicou muito.

A Prefeitura tem procurado os pais dos estudantes para conversar?
Nossas equipes estão indo nas casas das famílias, nas associações de bairro, nas igrejas, fazendo reuniões nas escolas e elaborando comunicados buscando sensibilizar as famílias. Mas muitas delas dizem que vão deixar para voltar no próximo ano. Depois de 18 meses sem aula ainda estão esperando perder mais dois ou três meses.

Qual o impacto da decisão dos pais de não levar as crianças para a escola? 
Não sei se as pessoas têm noção da gravidade disso. Nenhuma atividade econômica, social ou de lazer ficou tanto tempo interrompida quanto a escola. Nenhuma. Imagine uma criança que entrou no 1º ano em 2020, com 6 anos. Ela tem que se alfabetizar, e não há maneira de fazer isso remotamente. O resultado é que ela não foi alfabetizada, mas como a aprovação é automática ela vai entrar, em 2021, no 2º ano. E ela também não teve aula, porque a escola estava aberta, mas a família não levou. Ela vai ser automaticamente promovida para o 3º ano, em 2022, sem saber ler nem escrever, sem ter conhecimento nenhum. Essa criança vai ter problemas sérios de desenvolvimento escolar.

Quando o ano letivo de 2021 será concluído?
Em 29 de dezembro de 2021, seguindo o currículo especial que estabelecemos para esse ano com os conteúdos de 2020 e 2021. Todas as redes estão fazendo da mesma forma, mas o conhecimento adquirido por essas crianças no período remoto vai causar um enorme desafio para os profissionais em 2022. Temos plena consciência dessa situação.

O que a Secretaria da Educação vai fazer para resolver esse problema?
Estamos fazendo a aquisição de equipamentos de informática. Vamos distribuir um tablet com acesso à internet, com pacote de dados, para cada aluno do ensino fundamental, e a gente também está contratando um portal pedagógico que vai acompanhar o desempenho dos estudantes. Estamos fazendo avaliações desses alunos com institutos profissionais para identificar onde temos as lacunas mais graves de conhecimento e nortear o plano de ação para 2022, e vamos investir em capacitação. Temos um planejamento estratégico muito bem elaborado, projetos arrojados e com foco na melhoria do aprendizado e na recuperação do ensino perdido.

Quando começa o ano letivo de 2022?
No início de fevereiro. Estamos ajustando a data por conta dos feriados, mas teremos os 200 dias letivos.

Como anda a relação com os professores?
O diálogo sempre foi muito aberto, mesmo quando a direção do sindicato tinha um discurso mais ríspido ou intransigente, a gente sempre manteve a conversa. Passada essa questão do retorno às aulas e da vacinação, esse assunto está superado. Agora, o que precisamos fazer é atualizar os professores com linguísticas, técnicas e métodos de ensino e a própria tecnologia que vamos usar a partir do início do próximo ano.

Existe perspectiva de realização de  novo concurso para professores?
Temos um concurso em vigor. Chamamos todas as vagas e estamos com cadastro de reserva que será chamado à medida que as vagas forem surgindo, mas, hoje, estamos com apenas 30% dos alunos em sala de aula. Depois do cadastro, vamos poder dimensionar a quantidade necessária de professores e certamente vamos fazer novas convocações.

Quais mudanças dos últimos dois anos o senhor acredita que vão persistir?
A tecnologia é uma necessidade. Hoje em dia ninguém mais faz reuniões presenciais. E  não é por conta de estar preocupado com a pandemia,  porque os índices epidemiológicos estão sob controle e estamos  vacinados. A questão é que a gente percebeu que a tecnologia torna o processo mais eficaz. Essa mudança veio para ficar e a Educação tem que acompanhar. Levei para o prefeito Bruno Reis uma série de investimentos vultosos, em tecnologia e profissionalização. O prefeito aprovou e alocou o recurso necessário, então, Salvador tem todas as ferramentas para enfrentar o desafio.

Informações: Gil Santos / Correio 24h